terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Can´t Stop Now...

Eu faço as coisas sem sentido, e de todos os sentidos que possuo não há fato que se sustente, nem pernas, nem braços, nem mãos ou lábios. As tatuagens são necessárias quando não se tem a memória de nada do que se passou, só uma vaga lembrança de que algo passou, e passou tudo tão rápido.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A atrocidade de meninos/monstros

Para falar de Kevin Khatchadourian e transformá-lo em um dos personagens ficçionais mais assustadores de todos os tempos, a jornalista e escritora britânica Lionel Shriver precisou ser recusada por mais de 30 editoras. Não é difícil entender as razões de tais recusas e rejeições depois de terminar as 463 páginas de seu romance "Precisamos falar sobre o Kevin".
A colunista do jornal britânico The Guardian arriscou-se a contar uma história que estamos nos acostumando - se já não nos acostumamos de vez - a nos deparar aos abrirmos ou assistirmos aos jornais todos os dias. A historinha de um menino - aqui, com 16 anos - que decide entrar armado numa escola nos Estados Unidos e metralhar alguns alunos, professores e funcionários da instituição. Os fatos são, como a autora descreve, que esse tipo de assombração já não nos assusta, nem holocaustos, nem estupros, nem trabalho escravo infantil. Honestamente, a assombração é contrária, quando alguém que você não conhece te ajuda, sorri para você, te deseja bom dia, aparenta simpatia. Uau, que alívio viver neste mundo contemporâneo que infelizmente (ou felizmente, vai saber?), afastamos, ou pelo menos, tentamos afastar os problemas sérios e tristes que não conseguimos entender, processar, internalizar e apreender cognitivamente. Porque se depararmos com eles, com as famílias envolvidas, com as pessoas que morreram e que não costumam ter seus nomes citados - são apenas um número de vítimas para ser catalogado - e principalmente com a família do adolescente assassino e perverso, fica difícil continuar aparentando uma certa normalidade diante de tanta tragédia.
Inicialmente e aparentemente a crítica de Lionel poderia ser aos norte-americanos e seu estilo de vida, onde impera o funcionalismo, um país em que ninguém morre de fome ou em filas de serviço médico e assistencial, e onde tudo pode ser comprado "a não ser um senso de finalidade e bons propósitos" como foi escrito na revista Forbes. Mas a talentosa escritora não se resume à eles, ela fala por todos nós.
Ela não só decorre sobre o massacre em si, mas a estrutura da família, das nações e do senso de responsabilidade que supostamente deveria ser universal.
O livro é escrito em forma de correspondência de Eva Khatchadourian (a mãe de Kevin) ao seu ausente marido. E é através de suas cartas que progressivamente ela tenta analisar e entender onde foi que ela errou como mãe do menino Kevin. (Eu prefiro a palavra "menino" ao invés da tão utilizada palavra "monstro"). Psicanalíticamente seria improvável que um menino matasse 11 pessoas se essa mãe tão cheia de culpas depois do dia fatídico não tivesse errado, mas aqui, no livro de Lionel, ela não tenta fugir de seus erros e por mais perturbador que algumas afirmações possa parecer, a mãe é de uma sinceridade que pode deixar algumas outras mães bastante descontroladas.
Essa mãe ficçional deveria ser exemplo para outras tantas que preferem ignorar o que se passa dentro da própria casa. Com o passar dos anos, Eva entende perfeitamente que seu filho Kevin não é o que poderíamos chamar de um bom filho ou mesmo uma boa pessoa, e por muitas vezes declama em bom tom que não era esse o filho que ela esperava. As perguntas mais frequentes aqui são: É possivel odiar seu próprio filho? É possível, mesmo que sem atrocidades brutais como físicas e abusos de pais, uma crinça branca, de clásse média estoure os miolos dos outros por falta de atenção materna? É possível perdoar um caso assim? E talvez a mais importante: Até que ponto essas crianças são inteiramente culpadas por seus atos e até onde vai a consciência e responsabilidade por seus atos? Citando um trecho: "Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados. Você na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom". Difícil responder com os conceitos morais contemporâneos sobre o que é bom ou ruim, moralmente aceito ou não.
Mas Eva não é uma mãe ruim, apenas uma mãe que não estava preparada para colocar no mundo uma criança, uma mãe que embora tenha tentando por algumas vezes se comunicar com o filho, desiste por um longo tempo, por cansaço, por incredulidade de que as coisas mudem, impotência, culpa, ódio, amor.
Em que momento exato deixamos de pensar em fazer algo prejudicial para de fato cometê-lo?
Esses adolescentes podem ter traços que acreditamos ser de seres humanos? Em algum momento, sentem culpa, remorso? Segundo a nosologia psiquiátrica, não. Mas como costumo sair um pouco do que é convencionalmente estabelecido, acredito que sim, porque se há em nós sempre, marcado como tatuagem, atos e pensamentos animalescos e instintivos, por que não haveria o contrário? Por que não poderia haver traços de amor nos atos mais cruéis? Posso estar sendo bastante otimista no momento, mas já deixo claro que mesmo muitas vezes negando, sou humanista de carteirinha.
E por último e não mais importante pra mim é o fato de que socialmente poderíamos entrar num consenso de que "monstros" não são criados sozinhos, eles são ajudados a se transformarem em monstros. Então a responsabilidade passa a ser nossa, da sociedade que tenta de todas as maneiras fingir que o problema não é com ela. Citando mais uma vez o livro de Lionel: "Achava o rosto do nosso filho esperto e contido demais, e a mesma máscara evasiva de opacidade me fitava de volta quando eu escovava os dentes".
O livro me causou calafrios, mau-estar, ânsia, repugnação, mas me causou um sentimento maior de compaixão, não pelo menino/monstro, mas por uma mãe que antes do dia fatal, tentava desesperadamente entender àquele que ela denominava "filho", odiando e amando.
Um livro imprenscidível nos dias atuais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Em alguns idiomas...

Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.
It seems that something has gone out of order, out of the world order.
Algo parece estar fuera del orden, fuera del nuevo orden mundial.
E ainda alguém duvida?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Critérios de normalidade

Há anos, os pesquisadores da área de saúde, principalmente os psiquiatras, tentam entrar num consenso sobre critérios de normalidade, mas nos deparamos com teorias vagas e pragmáticas subjetivas relacionadas aos indivíduos que os criam.
Um dos critérios mais usados é o de normalidade como ausência de doença, eficaz nos diagnósticos psicopatológicos, mas falho e precário, pois é redundante e baseia-se numa "definição negativa". Isso é, a normalidade é definida não pelo que ela é, mas pelo que lhe falta.
Socialmente foi construído outro critério: a de uma normalidade ideal. Como o nome já diz, é ideal, utópica e não baseia-se na realidade. Ela seria uma norma ideal, baseando-se no que os indivíduos supostamente classificaram como "sadio" durante o passar dos anos. Empiricamente tal normalidade não foi constatada de uma maneira eficaz quantitativamente.
Temos também a normalidade estatística que identifica norma e frequência. Se a normalidade ideal não baseia suas evidências de maneira quantitativa, aqui é apenas isso o que é levado em conta. Então, o normal seria aquilo que se observa com mais frequência, e as pessoas que se desviassem dessa distribuição estatística determinada seria desviante psiquicamente. Teoria fácil de ser refutada já que cáries dentárias, sintomas ansiosos, depressão leve e uso pesado de álcool são exemplos de maioria quantitativa, mas não são consideradas normais ou saudáveis.
A Organização Mundial de Saúde definiu a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social. Criticável já que esse completo bem-estar é algo complicado e impreciso de se definir de maneira objetiva, fora o fato que o "completo bem-estar" é tão utópico que na sociedade atual pouquíssimas pessoas se encaixariam na categoria "saudável".
Outra: normalidade como processo. Essa é bastante utilizada em psiquiatria infantil e de adolescentes, assim como em psiquiatria geriátrica porque leva em conta os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, de desestruturações e reconstruções dos processos humanos. Útil, mas vago.
A normalidade subjetiva leva em conta a precepção subjetiva do indivíduo em seu estado de saúde. Teoria bastante "humana", mas tenho certeza que os indivíduos em fases maníacas se sentem muitíssimo bem. E aí?
A normalidade operacional é um critério assumidamente arbitrário e excessivamente pragmático. Define-se a priori o que é normal e o que é patológico. Grosso modo, os indivíduos são tratados através de uma nosologia e classificados sem ter sido levado em conta a sua subjetividade e sua história pessoal.
Acredito que a escolha do paradigma à ser utilizado depende das opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional.
Mas, mais do que isso, acho que estamos longe de concluirmos o que é normalidade ou falta dela. Não seria hora de sentar e tentar chegar num acordo? Não para o bem da medicina psiquiátrica, mas para o bem dos indivíduos que os procuram para serem ajudados (com ou sem saúde).

sábado, 22 de dezembro de 2007

Amor em Tempos de Cólera

Dear,
If you were going off to fight a war, a good war I could write this by candlelight weep, and then go to church and pray for you.
But there's only one war and it's bad and though. You promise that your ship's not going near Vietnam. I keep thinking your course will change.
It's 3:00 in the morning and I'm needing you like a thousand monkeys on my back.
I'm wearing you black t-shirt. You were looking all over for it before you left, but I had it hidden.
I needed something here that smells of you unspeakably delicate and innocent.
It amazes me to think that white i was growing up in Louisville you were growing up in New York.
But our fates had been cast and every stop we took was only bringing us closer until we fell into that bed and you were inside me and we both knew that we'd come to the end of the line. We will never be apart.
We maybe be at each other's throats or we maybe separeted by 5.000 miles but we'll never be apart.
So get off that boat. Get off and come home to me.
I need you, i need you.
You girl always...
De "Waking The Dead" de Keith Gordon.
Inspirador e triste.
Para N.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Questões sem Necessidade de Nome

Natal e Ano Novo são questões de fé.
Não necessariamente uma fé religiosa, mais uma fé que cada indivíduo tem de que, talvez, ano que vem, tudo possa ser diferente. Não importa que seja apenas a mudança de um dia para o outro, porque é Natal, porque é Ano Novo. E se essas datas conseguem transformar uma fagulha interna do indíviduo, então celebremos a esperança de mais um dia, de mais um mês, de mais um ano.
Celebramos a esperança de que, ano que vem, possamos encontrar alguém especial, um trabalho melhor, que renda mais e que sobre para viajarmos, que possamos ir mais ao cinema acompanhados das melhores pessoas da nossa vida, que encontremos as melhores pessoas para a nossa vida, àquelas em que podemos confiar, chorar, gargalhar. E com elas compartilhar nossos livros, nossas músicas, nossos sonhos.
Porque "esperança" é mais que uma palavra.
"Mas se através de tudo corre a esperança, então a coisa é atingida. No entanto a esperança não é para amanhã. A esperança é este instante. Precisa-se dar outro nome a certo tipo de esperança porque esta palavra significa sobretudo espera. E a esperança é já. Deve haver uma palavra que signifique o que quero dizer". Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nota Antiga

Acordada percebi que pode ter acabado:
o sonho colorido, o drama montado
a tragédia dos meses passados.
Pode ter acabado:
o amor que me fez delirar por alguns dias
a sombra do passado me perseguindo dizendo
bem baixinho: faltava carinho.
A vida voltou assim, o beijo esquecido e a
garrafa vazia de vinho tinto.
Fica também a cicatriz de mais um amor vencido
consumido pelo tempo, pela ventania.
É assim de fato: sem música triste de fundo.
22-12-06

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Entendimento

Acontece assim, rápido, rasteiro, me consumindo, me possuindo e me matando um pouquinho e me fazendo querer viver e viver tudo o que eu já vivi e que não me recordo mais. Memória lenta, memória fraca, memória-lampejo. E um homem vira e me diz de maneira rígida que eu não passo tormento. É porque ele não sabe das marcas no meu corpo, não atentou para as cicatrizes dos amores findados, das pessoas tão vivas em mim, mortas, daquelas outras tantas que me esqueceram. Sim, meu senhor, o que você tá vendo é gente que escorre, que clama sangue. Mas você não vai entender.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Paixão e amor: uma distinção necessária

Pergunto-me, inicialmente, se esta tentativa de tematizar uma distinção entre amor/paixão não seria uma contraposição à idéia da impossibilidade do encontro amoroso; formulado pela teoria psicanalítica como alienação e aprisionamento ao obscuro e impossível dos nossos desejos infantis, o encontro amoroso está, desta forma, fadado ao fracasso.
Com isso, talvez eu queira abrir a possibilidade de pensar um encontro que não seja posto segundo a égide da alienação e do engodo, que não seja comandado pela idealização do outro e apagamento de si.
Então, por mais que a condição humana de dependência ao outro, necessária para existirmos, seja inexorável - pura condição do humano - acredito que a experiência passional é o resultado de uma impossibilidade de confronto com nossa limitação. Desta forma, a apixão visa o preenchimento de um vazio interior de si e preserva, de um lado, as idealizações e, de outro, a servidão.
Portanto, o paradoxo que se coloca para a condição do ser humano é precisar do outro como condição de ser e, ao mesmo tempo, só poder ser na exata medida em que aceitamos a nossa solidão.
Para Freud, existem diversos casos nos quais o estado de apaixonamento é definido como expressão do amor sensual, aquele em que o indivíduo investe libidinalmente um objeto, visando à realização sexual. esta é a definição mais simples para explicar o fato do indivíduo estar amando: o amor sensual. No entanto, como explicar a permanência do investimento no objeto de amor, quando a corrente sexual se desfaz? O que faz com que este investimento se mantenha de forma mais duradoura?
A ternura é a chave que possibilita compreender a manutenção do investimento no objeto, quando o desejo sensual é satisfeito. Este afeto está, em suas raízes, ligado ao desejo sexual e é resultado de uma inibição dos fins da pulsão sexual do amor filial.
A ternura é a corrente mais antiga e surge asociada à pulsão de autopreservação, dirigindo-se àqueles que cuidam do "bebê". Esta corrente afetiva é impregnada de um erotismo que empresta sua força aos investimentos das pulsões do ego. A corrente sexual está desviada dos seus fins sexuais pelas impossibilidades de realizar-se, vindo a desabrochar na adolescência, quando recebe nova carga de libido e não pode mais dela fugir. É a interdição do incesto que força uma procura para além das figuras paternais, para então realizar seu fim. Desta forma, dá-se 'a forma de amor normal', no qual o objeto será tanto investido como objeto de 'paixão sensual' como de ternura, como outrora foram os familiares que cuidaram da criança. É essa junção das duas correntes que fará com que seja possível ao sujeito, viver uma relação na qual o objeto é valorizado e, ao mesmo tempo, desejado como objeto de realização sexual.
Assim, para que possamos falar de amor, não poderíamos conceber a cisão entre a corrente sensual e a corrente terna, afetiva. O amor é, portanto, postulado como um sentimento que se desdobra em relação à um objeto, desde que não haja uma fixação qualquer neurótica (difícil hoje em dia). Essa fixação gera a frustração da realidade.
O objeto de desejo jamais levará à satisfação porque o que se busca não poderá nunca ser encontrado. Talvez aí esteja também uma das chaves para compreendermos a distinção entre paixão e amor; a apixão está na ordem pura da pulsão, ao passo que o amor leva em consideração outras demandas do sujeito que não seja meramente a realização pulsional.
Neste sentido, podemos pensar que a paixão amorosa, por sua dimensão de ligação e submissão ao outro, não permite a expressão da ternura. A ternura é dessa forma, um sentimento que não está na ordem da paixão. Assim, para que haja amor sensual, dirigido ao objeto da escolha amorosa, é necessário que não haja mais fixação aos objetos incestuosos; para que haja ternura é necessário também, que a barreira do incesto tenha se interposto, e que o objeto de desejo não esteja mais intrincado à ambivalente relação com os primeiros objetos do desejo infantil.
Para que a ternura possa emergir é imperativo que a alteridade do outro a quem se dirige este afeto seja reconhecida. Esta é uma das vias de se pensar a distinção entre a paixão e o amor, como também pode ser a chave para a compreensão dos entraves que se manifestam na paixão silenciosa...

domingo, 11 de novembro de 2007

...

Não solta da minha mão...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Vazio

Doendo, dor quase como numa canção da Bethânia. E eu tenho tanto pra falar e quase nada de coragem para dizer para as pessoas certas as palavras quase certas.
Eu sinto que abraço a solidão, e não tem vista para o mar.

sábado, 27 de outubro de 2007

Divagações nada filosóficas

A mente nunca está satisfeita com o próprio funcionamento. Esse é o problema de uma máquina que pensa, ela pensa sobre si mesma e quer funcionar de outro jeito. Aí você bebe, toma café, ou usa nicotina, ou toma frontal ou heroína. Merda é que a mente precisa de corpo e ele não aguenta a batida. Corpo é um problema.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Poesia

Caetano é um chato, mas sabe como poucos escrever poesia em forma de música.
E essa é pura dor e delícia.

"Ó doce irmã, o que você quer mais?

Eu já arranhei minha garganta toda

Atrás de alguma paz.
Agora, nada de machado e sândalo.
Você que traz o escândalo,
Irmã-luz.

Eu marquei demais, tô sabendo
Aprontei demais, só vendo
Mas agora faz um frio aqui.

Me responda, tô sofrendo:
Rompe a manhã da luz em fúria a arder
Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria
Pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu aqui, só.

Eu marquei demais, só vendo
Aprontei demais, tô sabendo
Mas agora faz um frio aqui.

Me responda, tô sofrendo:
Rompe a manhã da luz em fúria a arder.
Dou gargalhada, dou dentada na maça da luxúria
Pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu aqui, só".

(Escândalo)


quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Banalidade do Mal

Em 1954, o inglês William Golding publica sua obra intitulada: "O Senhor das Moscas".
Um avião cheio de crianças e adolescentes cai numa ilha deserta, e os mesmos têm que lidar com a liberdade das regras socias que até então, determinavam seu dia-a-dia. Criam a princípio uma nova democracia ao escolher um novo chefe para se organizarem enquanto esperam resgate. Com o passar do tempo, se tornam caça e caçadores, gerando assassinatos e perversões.

O livro pode ser interpretado de inúmeras maneiras, uma delas é a abordagem da inocência perdida. Outra e bem interessante, é uma fábula com ecos bíblicos. "O Senhos das Moscas" é Belzebu, o príncipe dos demônios citado por Mateus. Podemos concluir que o selvagem atual era também uma criança cruel. A Psicanálise há tempos já tenta comunicar que a criança é um dos seres mais egoístas e desumanos, com perguntas boas demais, venenosas demais, ferinamente intimidantes.

Mas a questão que ficou pra mim foi básica: O instinto de sobrevivência gera pessoas selvagens? Ou, por intinto e pulsões internas, somos por essência, pessoas selvagens?
As rédeas sociais tentam disfarçar, dissimular o que é intrínseco humanamente: o mesquinho, a sordidez, a loucura. E vejamos que estamos precisando de outro tipo de leis e normas, porque estas em vigor, já não nos impele a cometer atos bárbaros e até mesmo genocídeos.
A brincadeira infantil, e por consequência a nossa, é machucar, não arcando com as consequências das pessoas maltrapilhas que deixamos pelo caminho. Em uma passagem do livro, uma das crianças imagina voltar à civilização, aquela que ele bem lembrava, onde não existia selvageria. E, hoje em dia, quem acredita nisso, nessa utopia que muitos fingem existir para continuarem sobrevivendo?

O "bicho" do livro, não é o bicho-papão, não é algo que se possa caçar e matar com uma lança, um revólver, uma faca. Nós somos o bicho , ele faz parte da nossa constituição. É a razão por qual ninguém se deixa ir embora tão facilmente, é a razão porque as coisas são o que são. Banais, simplesmente e humanamente banais.

Será que seremos sempre animais? Nunca seremos salvos?

"No meio deles, com o corpo sujo, cabelo emaranhado e nariz escorrendo, Ralph chorou pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano...". Golding.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Por Uma Psicologia Ética

Os psicólogos devem procurar, por uma obrigação interna e intensa militância aplicar o saber psicológico, psicanálitico ou psiquiátrico à melhora da sociedade em que vivemos. Isso, que deveria ser o empenho consciente e convicto de quem lida com as ciências humanas ou sociais é, infelizmente raro entre nós.
O que há de positivo na Psicologia nasce, não da omissão quanto à violência, mas do questionamento de toda pureza, de toda inocência, inclusive da nossa (alguém ainda duvida disso?).

Pergunta: Cadê a tomada pública de posição dos profissionais de saúde que dificilmente convertem sua teoria em ação?

Agir, para o pensador é divulgar seu conhecimento, é pô-lo a prova na sociedade, é checá-lo em seus efeitos, até, para quem sabe, modificar sua teoria.
Nosso dever é nomear a dor, essa dor que é a demanda de qualquer ciência humana, o enorme mal-estar no mundo. Ou não é certo que quase tudo o que se estuda sobre o homem tem a ver com algum nível de dor, chamem-se elas ciências humanas ou sociais? É reduzir com o ambicioso propósito de pôr-lhe fim, sem aceitar soluções que sejam placebos porcamente construídos.

Ao meu ver, uma psicologia ética exige que o analista saia do consultório, onde ele se instalou de maneira tão preguiçosa e procure ver nas formas de organização social, como as idéias e os afetos se embaralham de modo a saber como se preserva e mesmo amplia-se a injustiça.
Todos nós temos experiência disso, e presenciamos esses momentos de dor no confronto social, desde cenas de explícita crueldade e arrogância até instâncias de sofrimento compartilhado, em que sofre o opressor e sofre o oprimido, até porque são as relações, e não uma eventual maldade pessoal, que se mostram iníquas e geradoras de sofrimento.

Vamos realmente trabalhar e não apenas, fingir que trabalhamos.