terça-feira, 22 de abril de 2008

Re: Manhã de terça feira

Querida,

estou como você, ao invés de largada no aeroporto, largada na cama pensando, pensando, pensando (coisas que nunca levam a lugar nenhum). Nesse momento você deverá estar embarcando para o Rio e deixando São Paulo pra trás.
Quantos sonhos a gente deixa pra trás? Quantos a gente realiza? Eu tenho realizado poucos...
A gente podia ter uma grana para abrir nosso bar!! Em Salvador, no Rio, São Paulo, Paris ou em qualquer lugar do mundo. A gente podia ter tanta coisa, e não ter a consciência de tantas porcarias.
Eu aqui com o meu café e o meu cigarro. Ainda é cedo pra beber, ainda é cedo e sempre tarde demais.
Eu tenho medo, ainda morro de medo de pegar aviões nesse país, por isso (sempre) o rivotril, medo de dormir, medo de sonhar, sonhando a gente se decepciona. E saudades do que nunca aconteceu (Você bem sabe como é sentir isso).
Será que seríamos mais felizes na França? Ou seria mais uma fuga?Eu queria acreditar que é possível em algum lugar do mundo. E queria muito você sempre comigo.
A comida aqui acabando, o mercado é atravessando a rua, mas a minha vontade de sair desse apartamento é nenhum. Vou aderir às suas sopas horrorosas!
Não se force a escrever em lugar nenhum, mas para te dizer que eu entendo o seu e-mail, que entendo você, porque você vai ser sempre o avesso do meu espelho, este aqui vai estar lá postado no meu.
"Ficar cansada dos seus abraços, eu é que não vou
Quem esconde tudo que sente, eu é que não sou
Não vou mais pisar o freio, eu é que não vou
Andar com gente que é mais ou menos, eu é que não vou".
Beijo minha amiga e espero que esteja fazendo uma boa viagem
Te amo sempre.
M.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O sexo, a filha do canibal e o passar do tempo

Hoje ao reassistir alguns episódios de "Sex and the City" e de estar lendo o livro da espanhola Rosa Montero, "A Filha do Canibal", vi que havia elementos intrínsecos entre eles.
Num dos episódios da aclamada série norte-americana, a jornalista vivida por Sarah Jessica Parker, por ordem de seu editor, se vê na encruzilhada de escrever uma introdução para o seu livro sobre, claro, o sexo e a cidade, e percebe que com 35 anos nas costas não pensa da mesma maneira de alguns anos atrás, quando era otimista o suficiente para acreditar que encontraria um grande amor nas ruas de Nova Iorque.
Já no livro de Montero, a protagonista se vê questionando a própria existência depois do desaparecimento do marido. A protagonista com mais de 50 anos começa a entender e internalizar que com uma idade mais avançada, assim como muitos afirmam, envelhecer não é um ganho, ganho de experiência ou maturidade, mas que com o passar dos anos, a pessoa se vê perdida entre tantas perdas acumuladas durante as décadas. Quando se vive mais nas lembranças do que já se foi do que o que se é.
Minha vó de 86 anos também acredita nessa teoria como pude constatar numa conversa dias atrás.
Quando, exatamente, no percorrer da nossa vida deixamos de ser idealistas e sonhadores para nos tornarmos míseros sobreviventes de nossa história passada? Quando deixamos de ser otimistas para nos tornarmos cínicos?
A realidade é que a idade avançada não é necessariamente uma qualidade, é a proximidade da fatalidade, da morte, do fim, do significado de tudo que colocamos significados.
E essa afirmação pode ter um cunho positivo nos casos em que a pessoa não suporta mais a tortura que a vida nos aplica, ou de cunho negativo, se apesar de tudo, mesmo perdendo parte de sua identidade, a pessoa ainda mantêm uma fagulha de otimismo e esperança.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Gramática

É que eu não sei o que faço com esse aperto esse nó esses laços que por fim me enforcam me roubam a vontade o desejo a emoção e sobrevivo respirando a vida dos outros que no fundo parecem tão banais quanto a minha
Assim mesmo sem vírgula e sem ponto

sexta-feira, 28 de março de 2008

Na madrugada triste...

"E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora..."

(Camilo Pessanha)

segunda-feira, 17 de março de 2008

E não é?

"Quando o amor ou ódio não participa do jogo, a mulher é uma jogadora medíocre". Nietzsche.
Pensamento roubado do msn do Rodrigo.

domingo, 16 de março de 2008

Verdades no divã

Li três dos cinco best-sellers do psiquiatra e terapeuta Irvin D. Yalom: "Mentiras no Divã", "Quando Nietzsche Chorou" e "O Carrasco do Amor".
O estilo popular e muitas vezes simplório do autor não me atrai, não me convence, não me estimula e nada do que li me emocionou. Além dos estilos terapêuticos divergentes: Ele, me parece, um humanista, eu, psicanalista. O "aqui e agora" nunca me seduziu racionalmente.
Mas tenho que me redimir e assumir que eu gosto que ele esteja entre os mais vendidos, afinal, entre tantos livros de auto-ajuda, que não ajudam, há o interesse aqui de narrar histórias em que a terapêutica não é perdida, de má qualidade, perversa ou nociva.
São histórias de dores, feridas abertas, cicatrizes, loucuras, neuroses e psicoses, resumindo, são histórias de gente. E entendo porque as pessoas gostam: porque elas se identificam, se enxergam nas dores do "demasiado humano".
Mais do que isso, Irvin D. Yalom é sincero e não se coloca na posição médica frequente da nossa sociedade, no lugar de poder. Ele comunica aos seus leitores (assim como para seus pacientes) que ele tem as próprias cicatrizes, os próprios traumatismos e muitas dores confusas não identificadas por ele.
Talvez a minha reserva em relação à ele seja porque nada do que ele conta me é novo, e penso que um estudante de primeiro ano de faculdade de psicologia ache o mesmo. Mas, se ele consegue e me parece que o faz habilidosamente, emocionar e fazer com que seus leitores questionem conscientemente os seus problemas, espero honestamente que as vendas altas continuem.
Ponto pra ele.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Tocando sem parar

For you I was a flame
Love is a losing game
Five story fire as you came
Love is a losing game
Why do I wish I never played
Oh, what a mess we made
And now the final frame
Love is a losing game
Played out by the band
Love is a losing hand
More than I could stand
Love is a losing hand
Self professed... profound
Till the chips were down...know you’re a gambling man
Love is a losing hand
Though I’m rather blind
Love is a fate resigned
Memories mar my mind
Love is a fate resigned
Over futile odds
And laughed at by the gods
And now the final frame
Love is a losing game
(Amy Winehouse - Love is a Losing Game)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Delete

É possível que lembranças, memórias, cicatrizes, envelhecimento e marcas corpóreas estejam inter-relacionadas?
Já escrevi anteriormente que nós não sabemos lidar com a dor e que para isso procuramos nos afastar dela com paleativos. Se o sujeito tem insônia, ele toma um comprimidinho para dormir, mas não sabe e nem quer se conscientizar das causas do seu problema. Isso leva tempo e não há tempo a perder.
Numa sociedade imediatista não podemos ter o luxo de nos concentrar com as razões, mas gastamos todo o nosso tempo com as consequências delas no nosso corpo e algumas vezes com de nossa cabeça. Com isso perdemos o melhor de nossa existência.
Se estamos envelhecendo, pagamos alto para passarmos por inúmeras cirurgias plásticas que nos modelam como a mulher/homem do filme da semana passada de Hollywood (Na minha modesta opinião, uma das maiores bizarrices da cultura ocidental contemporânea).
E como apagar da mente eventos que não queremos mais acessar? Não possuíndo mais eventos.
Procuramos e nos esquivamos cada vez mais de termos acontecimentos grandiosos, porque sem eles, não teremos traumas grandiosos.
O filme "O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" de Michel Gondry nos revela sobre tais aspectos mais que muitas pesquisas científicas (A arte ainda nos salva da barbárie geral).
Se fosse possível apagar de nossa vida relacionamentos que não foram para frente e nos fizeram sofrer, faríamos? Imagino que nesta sociedade boçal, teríamos filas maiores que a do sistema de saúde brasileiro para tal procedimento.
Apagar-se-ia a nossa dor e nossa tortura, e com ela, todas as nossas lembranças boas, felizes e agradáveis de tal relacionamento.
Apagar-se-ia a nós mesmos.
Sartre já disse que somos a soma de todas as nossas escolhas, consequentemente, de nossas ações.
Mas, como produtos prontos, removemos de nós todos as cicatrizes e marcas de nossas experiências no corpo e não desejamos mais (pelo menos conscientemente) grandes amores ou esperanças, deduzindo que nos trará grandes dores de cabeça.
Estamos apagando das nossas vidas, o essencial, o que dá razão para existirmos e continuarmos existindo.
Se apagamos e não desejamos a nossa própria história, qual o significado de estarmos vivos?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Peso de 21 gramas

O filme de Alejandro González Iñárritu, lançado em 2004 foi revisitado por mim inúmeras vezes, sempre com dor.
Uma amiga certa vez declarou que filme triste não é bonito, é apenas triste.
Depende do filme.
Uma escola da Psicologia defende que a nossa casa concreta é um espelho da interna, da nossa morada subjetiva, se nossa cabeça se transforma ou é transformada num inferno, diretamente reflete-se onde nos abrigamos. Percebe-se claramente tal movimento com o passar das cenas e percebe-se a rapidez com que isso acontece, acompanhando a rapidez dos acontecimentos trágicos na vida de três pessoas. Todas as três, metidos num emaranhado de culpa procuram refúgio ou na religião, na bebida e drogas ou no fato de ter sido salvo por um transplante de coração. Sabido que a culpa é um dos piores sentimentos que podemos sentir, até porque, sentido, precisamos por momentos transformar a culpa em responsabilidade, essa última transferida para qualquer um que não seja nós próprios.
Em uma das cenas, o personagem que se converte num fanático religioso repete o que lhe é ensinado: "Jesus é a nossa luz, Jesus é a nossa esperança, Jesus é a nossa absolvição". Buscando assim a sua salvação no outro - assim como a responsabilidade dos atos cometidos - mas o outro, seja jesus ou seja outra pessoa que escolhemos proximidade também está perdido e não pode ajudar. Pode ser que sejamos "salvos" com a consciência de que não há salvação propriamente dita.
Há outros elementos: A da verdade que fingimos não acreditar. Numa das cenas, a mulher que perde o marido e as duas filhas num acidente subverte e diz o que a maioria não se atreveria quando consolada por seu pai que lhe fala que a vida continuará: " Não, é mentira, a vida não continua simplesmente". Ponto pra ela.
Não, a vida não continua e como diz a música: "amputado do membro que já perdi".
E o que falar sobre o amor substituto? Aquele que os personagens buscam para amenizar a amputação? Talvez não seja amor enfim. Ele se confunde, se atrapalha, se transforma em dó, pena. É como diz outra música: "Não venha com piedade porque piedade não é amor".
'A dor e a delícia de ser o que é' é a conscientização de que podemos pesar meramente 21 gramas e não saber exatamente o quanto de dor e de delícia cabem num peso de um beija-flor.
De bonito? Só a calcinha vermelha da Naomi Watts.
Tristíssimo. Real. Comovente. Indispensável.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

E, e, e...

- ... o que eu quero dizer e o que eu acho que você não está entendendo é que ontem eu sonhei um sonho tão real, tão real e quando acordei, pensei que o sonho era o que eu vivia e eu acordei e despertei e olhei para o meu quarto escuro e era tudo mais bonito e colorido e cheirava a flores e eu não tinha mais alergia de flores e eu não sabia se eu sorria ou se eu chorava, chorava de alegria, e eu queria correr por aí, correr mesmo para contar e dividir e compartilhar e chorar junto tudo isso e me convencer que o sonho era mesmo tão concreto que dava para tocar e passar o dia suspirando e levitando e criando esperanças sem desconfiança e, e, e, acreditando, sabe?
- Não.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

No Title

Um calor colossal.
E um frio absurdo dentro de mim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Can´t Stop Now...

Eu faço as coisas sem sentido, e de todos os sentidos que possuo não há fato que se sustente, nem pernas, nem braços, nem mãos ou lábios. As tatuagens são necessárias quando não se tem a memória de nada do que se passou, só uma vaga lembrança de que algo passou, e passou tudo tão rápido.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A atrocidade de meninos/monstros

Para falar de Kevin Khatchadourian e transformá-lo em um dos personagens ficçionais mais assustadores de todos os tempos, a jornalista e escritora britânica Lionel Shriver precisou ser recusada por mais de 30 editoras. Não é difícil entender as razões de tais recusas e rejeições depois de terminar as 463 páginas de seu romance "Precisamos falar sobre o Kevin".
A colunista do jornal britânico The Guardian arriscou-se a contar uma história que estamos nos acostumando - se já não nos acostumamos de vez - a nos deparar aos abrirmos ou assistirmos aos jornais todos os dias. A historinha de um menino - aqui, com 16 anos - que decide entrar armado numa escola nos Estados Unidos e metralhar alguns alunos, professores e funcionários da instituição. Os fatos são, como a autora descreve, que esse tipo de assombração já não nos assusta, nem holocaustos, nem estupros, nem trabalho escravo infantil. Honestamente, a assombração é contrária, quando alguém que você não conhece te ajuda, sorri para você, te deseja bom dia, aparenta simpatia. Uau, que alívio viver neste mundo contemporâneo que infelizmente (ou felizmente, vai saber?), afastamos, ou pelo menos, tentamos afastar os problemas sérios e tristes que não conseguimos entender, processar, internalizar e apreender cognitivamente. Porque se depararmos com eles, com as famílias envolvidas, com as pessoas que morreram e que não costumam ter seus nomes citados - são apenas um número de vítimas para ser catalogado - e principalmente com a família do adolescente assassino e perverso, fica difícil continuar aparentando uma certa normalidade diante de tanta tragédia.
Inicialmente e aparentemente a crítica de Lionel poderia ser aos norte-americanos e seu estilo de vida, onde impera o funcionalismo, um país em que ninguém morre de fome ou em filas de serviço médico e assistencial, e onde tudo pode ser comprado "a não ser um senso de finalidade e bons propósitos" como foi escrito na revista Forbes. Mas a talentosa escritora não se resume à eles, ela fala por todos nós.
Ela não só decorre sobre o massacre em si, mas a estrutura da família, das nações e do senso de responsabilidade que supostamente deveria ser universal.
O livro é escrito em forma de correspondência de Eva Khatchadourian (a mãe de Kevin) ao seu ausente marido. E é através de suas cartas que progressivamente ela tenta analisar e entender onde foi que ela errou como mãe do menino Kevin. (Eu prefiro a palavra "menino" ao invés da tão utilizada palavra "monstro"). Psicanalíticamente seria improvável que um menino matasse 11 pessoas se essa mãe tão cheia de culpas depois do dia fatídico não tivesse errado, mas aqui, no livro de Lionel, ela não tenta fugir de seus erros e por mais perturbador que algumas afirmações possa parecer, a mãe é de uma sinceridade que pode deixar algumas outras mães bastante descontroladas.
Essa mãe ficçional deveria ser exemplo para outras tantas que preferem ignorar o que se passa dentro da própria casa. Com o passar dos anos, Eva entende perfeitamente que seu filho Kevin não é o que poderíamos chamar de um bom filho ou mesmo uma boa pessoa, e por muitas vezes declama em bom tom que não era esse o filho que ela esperava. As perguntas mais frequentes aqui são: É possivel odiar seu próprio filho? É possível, mesmo que sem atrocidades brutais como físicas e abusos de pais, uma crinça branca, de clásse média estoure os miolos dos outros por falta de atenção materna? É possível perdoar um caso assim? E talvez a mais importante: Até que ponto essas crianças são inteiramente culpadas por seus atos e até onde vai a consciência e responsabilidade por seus atos? Citando um trecho: "Você só consegue afetar quem tem consciência. Só pode punir quem tem esperanças para serem frustradas ou laços a serem cortados. Você na verdade, só consegue punir quem já é pelo menos um pouquinho bom". Difícil responder com os conceitos morais contemporâneos sobre o que é bom ou ruim, moralmente aceito ou não.
Mas Eva não é uma mãe ruim, apenas uma mãe que não estava preparada para colocar no mundo uma criança, uma mãe que embora tenha tentando por algumas vezes se comunicar com o filho, desiste por um longo tempo, por cansaço, por incredulidade de que as coisas mudem, impotência, culpa, ódio, amor.
Em que momento exato deixamos de pensar em fazer algo prejudicial para de fato cometê-lo?
Esses adolescentes podem ter traços que acreditamos ser de seres humanos? Em algum momento, sentem culpa, remorso? Segundo a nosologia psiquiátrica, não. Mas como costumo sair um pouco do que é convencionalmente estabelecido, acredito que sim, porque se há em nós sempre, marcado como tatuagem, atos e pensamentos animalescos e instintivos, por que não haveria o contrário? Por que não poderia haver traços de amor nos atos mais cruéis? Posso estar sendo bastante otimista no momento, mas já deixo claro que mesmo muitas vezes negando, sou humanista de carteirinha.
E por último e não mais importante pra mim é o fato de que socialmente poderíamos entrar num consenso de que "monstros" não são criados sozinhos, eles são ajudados a se transformarem em monstros. Então a responsabilidade passa a ser nossa, da sociedade que tenta de todas as maneiras fingir que o problema não é com ela. Citando mais uma vez o livro de Lionel: "Achava o rosto do nosso filho esperto e contido demais, e a mesma máscara evasiva de opacidade me fitava de volta quando eu escovava os dentes".
O livro me causou calafrios, mau-estar, ânsia, repugnação, mas me causou um sentimento maior de compaixão, não pelo menino/monstro, mas por uma mãe que antes do dia fatal, tentava desesperadamente entender àquele que ela denominava "filho", odiando e amando.
Um livro imprenscidível nos dias atuais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Em alguns idiomas...

Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.
It seems that something has gone out of order, out of the world order.
Algo parece estar fuera del orden, fuera del nuevo orden mundial.
E ainda alguém duvida?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Critérios de normalidade

Há anos, os pesquisadores da área de saúde, principalmente os psiquiatras, tentam entrar num consenso sobre critérios de normalidade, mas nos deparamos com teorias vagas e pragmáticas subjetivas relacionadas aos indivíduos que os criam.
Um dos critérios mais usados é o de normalidade como ausência de doença, eficaz nos diagnósticos psicopatológicos, mas falho e precário, pois é redundante e baseia-se numa "definição negativa". Isso é, a normalidade é definida não pelo que ela é, mas pelo que lhe falta.
Socialmente foi construído outro critério: a de uma normalidade ideal. Como o nome já diz, é ideal, utópica e não baseia-se na realidade. Ela seria uma norma ideal, baseando-se no que os indivíduos supostamente classificaram como "sadio" durante o passar dos anos. Empiricamente tal normalidade não foi constatada de uma maneira eficaz quantitativamente.
Temos também a normalidade estatística que identifica norma e frequência. Se a normalidade ideal não baseia suas evidências de maneira quantitativa, aqui é apenas isso o que é levado em conta. Então, o normal seria aquilo que se observa com mais frequência, e as pessoas que se desviassem dessa distribuição estatística determinada seria desviante psiquicamente. Teoria fácil de ser refutada já que cáries dentárias, sintomas ansiosos, depressão leve e uso pesado de álcool são exemplos de maioria quantitativa, mas não são consideradas normais ou saudáveis.
A Organização Mundial de Saúde definiu a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social. Criticável já que esse completo bem-estar é algo complicado e impreciso de se definir de maneira objetiva, fora o fato que o "completo bem-estar" é tão utópico que na sociedade atual pouquíssimas pessoas se encaixariam na categoria "saudável".
Outra: normalidade como processo. Essa é bastante utilizada em psiquiatria infantil e de adolescentes, assim como em psiquiatria geriátrica porque leva em conta os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, de desestruturações e reconstruções dos processos humanos. Útil, mas vago.
A normalidade subjetiva leva em conta a precepção subjetiva do indivíduo em seu estado de saúde. Teoria bastante "humana", mas tenho certeza que os indivíduos em fases maníacas se sentem muitíssimo bem. E aí?
A normalidade operacional é um critério assumidamente arbitrário e excessivamente pragmático. Define-se a priori o que é normal e o que é patológico. Grosso modo, os indivíduos são tratados através de uma nosologia e classificados sem ter sido levado em conta a sua subjetividade e sua história pessoal.
Acredito que a escolha do paradigma à ser utilizado depende das opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional.
Mas, mais do que isso, acho que estamos longe de concluirmos o que é normalidade ou falta dela. Não seria hora de sentar e tentar chegar num acordo? Não para o bem da medicina psiquiátrica, mas para o bem dos indivíduos que os procuram para serem ajudados (com ou sem saúde).