terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Carnaval cinematográfico


Enquanto a maioria das pessoas estavam batucando e pulando pelos carnavais a fora, eu como fã de cinema, comidinha gostosa e boa companhia, fiquei em casa assistindo alguns filmes em Dvd que eu perdi nos cinemas. Foi o caso de "Ao Entardecer", um filme com um elenco feminino pouco visto no cinema atual: Vanessa Redgrave, Toni Collette, Claire Danes, Glenn Close, Meryl Streep e Natasha Richardson. Além do show das atrizes, um filme simples e que emociona. Nada de ilusões e final feliz, mas algo do tipo "a vida como ela é". "Fatal", filme da diretora Isabel Coixet, de "Minha vida sem mim", traz história baseada em livro do fantástico Philip Roth e os atores Ben Kingsley e Penélope Cruz. História sem sentimentalismos, muito bem interpretada e dirigida sobre um homem de meia-idade que não sabe se posicionar diante do relacionamento com a namorada mais nova. Outra vez aqui, o tempo mostra-se impiedoso. Se Kingsley mais uma vez mostra porque é considerado um dos maiores atores da atualidade, Penélope rouba a cena com sua beleza e talento. E por fim, "A Família Savage" que é um filme parado, estilo europeu com diálogos marcantes e interpretações brilhantes de Laura Linney e Philip Seymour Hoffman.

Filmes sem efeitos especiais, maquiagens elaboradas, nem lugares estonteantes. Filmes sobre pessoas, relacionamentos, dores, culpa. Vida.

E falando em cinema, não dá pra não comentar que embora não tenha assistido "O Leitor", "Milk" e "Vick Cristina Barcelona", já digo de antemão que foi mais que justo as estatuetas do Oscar para três dos maiores ícones da sétima arte atuais: Kate Winslet (simplesmente a melhor), Sean Pean (genial) e Penélope Cruz (fantástica). Dessa vez, a Academia não teve medo de acertar!
Meu carnaval não acabou, hoje a noite, troco mais uma vez as baterias de escola de samba e trios elétricos para conferir na telona "Quem quer ser um milionário?" e avaliar se a estatueta foi merecida para o Oscar de melhor filme.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

As várias maneiras de falar


Falar de pessoas é sempre complicado, caminho árduo de seguir; como psicóloga tentei inúmeras vezes, mas a ciência também tem seus defeitos, e dois deles é a frieza e a aparente neutralidade: Não se fala de gente, mas de sujeitos, não de nomes, mas de estatísticas e parece sempre faltar alguma coisa.
Sou da galera, então, que recorre à arte e com ela me emociono e me dilacero e me entristeço e me desconstruo para recomeçar a me construir novamente.

Me reconstruo nas mulheres e nas cores de Almodovar, na mulher atravessada na garganta de Eduardo Galeano, no rapaz que bate bate bate na porta que nunca abre de Caio Fernando Abreu, na pobreza física e emocional dos filmes de Fernando Meirelles, nas estradas perdidas das cidades dos sonhos de David Lynch, na dor e na delícia de Caetano Veloso, na voz profissional, tranquila de um vilarejo cantado por Marisa Monte, no piano e na dança transgressora de Nina Simone, na própria transgressão chamada Madonna, no eterno desassossego de Fernando Pessoa, do não existir-existindo nos mundos de Clarice Lispector, no olhar esquizofrênico e talentoso e belo de Jennifer Connelly, na dor que transborda as esculturas de Camille Claudel e na auto-flagelação e insistência de Frida Kahlo.

Hebert Vianna já disse: A vida não é filme e você não entendeu.
Realmente, não entendi e nem quero.

"Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome, cores de Almodovar, cores de Frida Kahlo, cores...". Adriana Calcanhotto.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Desabafo

Estava eu lendo o novo livro de Martha Medeiros: "Doidas e Santas", quando me deparei com uma crônica dela sobre uma tal psicóloga chamada Louise L. Hay que diz que todas as doenças são produzidas pela mente. Até aí, ok! (Não que seja simplório dessa maneira), mas depois dessa afirmação, todo o resto vira esculhambação, como essa pérola: "Todas as doenças têm origem num estado de não-perdão".
Por isso, muita gente (e com razão) com um mínimo de inteligência acaba achando a Psicologia, "a ciência da auto-ajuda". E com razão também, embora me encha de ódio, as prateleiras de Psi em livrarias são lotadas de auto-ajuda.
Primeiro: A Psicologia pouco lida com as doenças físicas. Quando se fala de doença no corpo na área psíquica, fala-se de Psicossomática. E Psicossomática é sério, é provado, é estudado, é dabatido, é uma equação, 2+2 =4, sempre.
Mas quem divulga a psicossomática (A séria)? Não interessa aos médicos e não interessa à indústria farmacêutica que seja divulgado que câncer, pode sim, ser tratado num consultório psicológico, reumatismo, problemas no coração, enxaqueca e quase todas as doenças que o corpo armazena.
O pulso ainda pulsa, o corpo ainda é pouco e o povo não colabora.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Nem um pouco curioso

David Fincher, na minha modesta opinião, é um dos grandes cineastas da atualidade. Conseguiu abalar platéias do mundo todo com "Seven", criou imagens incríveis no apenas mediano, "O Quarto do Pânico", e realizou um filme inteligentíssimo chamado "O Zodíaco".
E agora ele reaparece dirigindo o tão falado e tão indicado a mil prêmios, "O Curioso Caso de Benjamin Button". Pois esse não me comoveu, não me fez chorar (está explícito que é o que querem os realizadores do filme), não me sensibilizou, não me tocou, apenas me cansou, me deixou entediada. Horas de filme que poderiam ser editadas para deixar a platéia mais confortável, maquiagem demais, gente demais, falatório demais, e moralzinha da história no final, penso que quando há a necessidade dela (a moral) existir é porque o filme foi totalmente em vão. Para que serve a subjetividade e a criatividade da pessoa que assiste se o final já vem pronto e preparado?
Sobre os atores: Cate Blanchett é sempre boa, até quando o filme é ruim. E Brad Pitt devia agradecer aos maquiadores. Porque são as mesmas caras e bocas de sempre. Se vencer o Oscar por isso, poderia dar as mãos à Nicole Kidman quando ganhou por "As Horas" por causa de um nariz postiço.
Só espero que o diretor tão conceituado pra mim, possa futuramente desenvolver os suspenses que ele faz magistralmente. Fora isso, mais nada a dizer.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Literatura e música


Lendo ao som de "Tu me acostumbraste", na voz de Caetano Veloso em Araçá Azul.

"Medo de nada compreender, medo de tudo compreender. Medo de amar e de não mais amar. Medo de tudo esquecer e medo de nada esquecer...medo de passar fome, medo de não ter mais sede de nada. Medo de morrer e de viver. Medo de ter medo. Medo de estar sozinho quando ninguém mais está ali. Medo de estar sozinho quando o ser amado está ali.
Há um medo que não é a morte, ainda, mas que não é mais a vida". Élie Wiesel


"Tu me acostumbraste, a todas esas cosas
Y tu me enseñaste, que son maravillosas".

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Qual o nome disso?


Eu li num blog de uma amiga querida algo lindo de uma poeta que eu não conhecia, Andreia Horta:

"É aqui"
E colocava a mão no ventre
"É aqui que você me bagunça".

E me lembrei de uma paciente me dizendo sobre o homem que ama:
"Meu coração não bate, ele explode todas as vezes que eu o vejo, quase não tenho mais saúde. Sinto que numa dessas, ele pára de vez".

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Exercendo (e gostando) do meu lado voyeur

Há uma janela muito perto da minha mesa onde fica o notebook, alguns livros e muita papelada e fico sentada um bom tempo diante dela (da mesa) e passo um outro bom tempo diante da janela. Já vi coisas interessantíssimas acontecerem diante dos meus olhos, mas faz uma semana que eu venho acompanhando a saga de uma família que vive em uma casa ao lado do meu prédio.
A saga do que acontece no quintal, claro.
Durante três dias seguidos, dois rapazes que devem ter no máximo 18 anos, dançaram todas as coreografias de todos os ritmos existentes no universo - e quando eu digo dançaram, não como um hobbie, mas com uma aplicação típica dos dançarinos do Bolshoi. Um brigava severamente com o outro quando este errava. De vez enquando, olhavam pra cima e me avistavam olhando para eles e esse fato, me parece, não os incomodou em absolutamente nada. A dedicação era a mesma. De vez enquando a mãe (acho que o é), dava o ar da graça e dançava junto - e dançava bem.
Noutro dia, o cachorro que costumava ter o pêlo preto, apareceu cor-de-rosa com laço vermelho na cabeça e ontem, o pai (imagino que o seja) andava em círculos em sua motinho neste quintal que deve ser um pouco maior que o meu quarto. Não foram duas ou três voltas, o cara deve ter gasto um tanque de gasolina andando em círculos (com o cachorro latindo atrás).
Fora o gosto para festas. Todo dia é dia de música alta, cantoria, danças e churrasco. E quando eu digo todo dia, é de segunda à segunda.
Não sei ao certo o porquê de escrever sobre eles, mas penso que essa seja uma família atípica dos dias atuais.
No fundo, tenho inveja e ao mesmo tempo enternecida da alegria precária, do sentimento puro e sem constrangimentos, da espontaneidade e da vontade de ser feliz sem muito esforço. Ou será que essas coisas precisam de esforço?
Não conheço muitas famílias assim, não conheço muita gente assim, não concebo relações assim. E eu sou a pessoa triste da história, porque hoje dei uma olhada pela janela e eles não estavam lá. E eu senti falta da alegria de qualquer um deles, que no fundo, é um pouco também da minha.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Pensamento do dia

Est-ce t'aimer, je n'en sais rien.
J'ignore si j'idéalise.
La saine couleur de ta peau, ton tendre sourire...
Mais je me sens sourire à voir ce sourire qui pénètre en moi comme un soleil d'hiver...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Clint e Angelina




Gosto muitíssimo de Clint Eastwood, deixando claro que a fase dele como herói de filmes de faroeste não está na minha lista de favoritos. Gosto dele como diretor e da pose (pouca pose) de celebridade, da postura austera, do semblante simpático e cativante e da maneira como dirige e conduz seus filmes. Nenhum dos filmes dirigidos por ele estão no meu Top 10, mas é inegável a sua classe e seu mérito nas escolhas dos roteiros, histórias e atores.
Minha admiração se iniciou em "Sobre Meninos e Lobos", histórinha difícil de contar, e quando todos acharam que ele focaria pura e simplesmente no assunto sobre pedofilia e assassinato, ele surpreende e comove. Chamou elenco de peso, até para papéis muito coadjuvantes (acho que deve ser uma tremenda honra trabalhar com ele). Mais tarde veio "Menina de Ouro", que abocanhou diversos prêmios e colocou a atriz Hilary Swank novamente na parada de Hollywood, depois de ser esquecida por alguns anos após "Meninos Não Choram". Filmou dois filmes paralelamente: "A Conquista da Honra", e "Cartas de Iwo Jima", filmes não só de guerra, mas de pontos de vista, de vidas destroçadas por guerras incompreensíveis.

E é assim que Clint filma: foca o lado humano, terreno, subjetivo, deslocado, louco, ingênuo, passivo e lutador que cada pessoa possui. E por isso é adorado. Clint filma nós, em nossa profunda solidão da condição humana.

Nesta sexta, estreou "A troca", e ele escolheu a celebridade maior dos últimos tempos, Angelina Jolie, para protagoniza-lo. Esqueci de dizer anteriormente que Clint também tem um bom faro. Jolie não é só a mulher dos sonhos de muita gente, quando tem um bom papel na mão e quando bem conduzida consegue dar show. Em 1998, quando muitos não sabiam de sua existência, eu a vi em "Gia" e me apaixonei pela maneira intuitiva e instintiva dela de atuar, além de achá-la linda. Depois de Gia, veio "Garota, Interrompida", ganhou alguns prêmios, e virou estrela mundial em "Tomb Raider". E neste momento esqueceram que ela sabia atuar. Angelina fez escolhas terríveis, filmes absurdos, roteiros bizarros e o público começou a vê-la como apenas uma mulher extremamente bonita e afortunada. Veio então, "O Preço da Coragem", filme chatíssimo que narra o famossíssimo evento em que um jornalista sediado no sudeste asiático é sequestrado e morto. Angelina faz o papel da esposa, que incansável, procura o marido, então, desaparecido. Filme chato, mas atuação impecável, que valeu a ela depois de anos, uma indicação ao Globo de Ouro de atriz dramática. Em "A Troca", mais uma vez, ela desenvolve uma outra mulher-coragem, e mais uma vez baseado em pessoas reais e nesse filme, em eventos acontecidos na década de 20 e 30. Ela desenvolve com sensibilidade e força o papel da mãe que vê seu filho desaparecer, e que luta contra a polícia desastrosa e corrupta de Los Angeles que lhe entrega a criança errada.

Neste exato momento, ocorre a entrega de mais um Globo de Ouro, e mais uma vez, ela foi indicada ao prêmio de melhor atriz. Não sei se ganhará, embora seja a favorita, mas pouco importa.

"A Troca" não é inesquecível, não é um filme soberbo, em alguns momentos é longo e pode ser cansativo, mas ele talvez seja obrigatório, simplesmente para descobrirmos o talento de Jolie e reafirmarmos a coragem de Eastwood.
Uma amiga costuma dizer: os sensíveis se encontram. Bom pra nós.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Just like a heaven

Um novo sopro de esperança...(e eu recorrendo mais uma vez à Clarice)
Estar reunida com profissionais que eu admiro e que são pessoas que fazem do meu dia melhor, menos amargo, menos vazio.
E estar com você, bem ou mal, fazendo planos, criando realidade em cima de degraus e degraus de sonhos, tendo momentos maiores de felicidade, mais plenos, mais concretos, mais simples, cotidianos. E não, não tem coisa melhor do que começar o ano com um sopro maior: o de vida.
You just like a dream. In the moment. In to my arms.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Baiano, carioca, paulista...


Ouvindo essa música da Adriana Calcanhotto na voz de Belô Velloso, eu desejo internamente essa simplicidade nas sextas, segundas, terças...
Porque todo dia é dia de beleza, de qualquer tipo, com qualquer intenção, ou sem nenhuma intenção ou razão. A emoção é sempre mais interessante!

Toda sexta-feira toda roupa é branca
Toda pele é preta
Todo mundo canta
Todo céu magenta
Toda sexta-feira todo canto é santo
E toda conta
Toda gota
Toda onda
Toda moça
Toda renda
Toda sexta-feira
Todo o mundo é baiano junto.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Luz, mais luz...


Já escrevi neste blog anteriormente que Natal e Ano Novo são festividades que dependem de fé. Eu não tenho nenhuma crença em algo sobrenatural, metafísico. Mas quero acreditar que o ano de 2009 possa ser melhor - sempre melhor -, que as pessoas ainda possam conseguir estender as mãos cansadas, que possam celebrar e chorar juntos e comemorar o fato de simplesmente estarem vivos, como se todos os dias fosse ano novo, nesse sentimento de esperança que não sai do nosso corpo, que escapa pelos nossos poros, que alimenta nossos dias e que faz a gente prosseguir pelos outros 364 dias do ano.

Quero, sim, acreditar que o amor, o respeito e o carinho possam ser vistos com um olhar nosso, humano, e que estes sentimentos vençam outros: a raiva, a ganância, a inveja e a ira.
Eu quero acreditar nas pessoas e isso é quase como acreditar em papai noel...

Esse pequeno texto é dedicado a três pessoas generosíssimas que me fazem acreditar em papai noel: Mônica, meu tio Carlos e minha tia Silvia.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Gênio maior da MPB


Mesmo com o preço salgado, comprei e me deleitei com o novo DVD da cantora brasileira, carioquíssima e do mundo, Marisa Monte.
Infinito ao meu Redor não é como os outros DVDs musicais, é um documentário da turnê dos dois discos lançados pela cantora em 2006: "Universo ao meu Redor" e "Infinito Particular".

Fã de carteirinha desde quando ela lançou MM há muito tempo atrás, Marisa só se reinventou, melhorou e conseguiu dar novas perspectivas à música brasileira. Genialidade, generosidade, honestidade, franqueza são adjetivos poucos para a maior diva da nossa música, que canta igual e com a mesma intensidade em casas famosas do mundo todo e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.
Junto com o DVD, ainda tem o Cd das músicas filmadas para o documentário, com as duas inéditas e bacaníssimas: "Pedindo pra voltar" de Carlinhos Brown e Alain Tavares e "Não é Proibido", de sua autoria, Seu Jorge e Dadi. Gente de primeiríssima, que aparece no documentário com outras pessoas de primeiro time da música e da arte brasileira.

O projeto é interessante também para que as pessoas que acham Marisa esnobe, elitista e chata, mudem de idéia. Marisa é do povo, trabalha duro, ela se espanta, se encanta e acaba encantando um mundo de gente que assim como eu, ao ouvir suas canções, despertam para um outro universo, um muito mais bonito do que esse que a gente se depara todos os dias.
Encantadíssima, emocionada, eu agradeço mais uma vez e mais uma vez repito sobre o gênio maior da música brasileira atual: Salve, salve Marisa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Como alguma coisa que nem sei...

Tanta coisa, eram para ser palavras bonitas o suficiente para descrever o bem que você me fez, me faz. Uma canção descompromissada, um acorde vindo do nada, um som, uma melodia que eu sempre quis escutar. Como é que se faz?
E a sua presença, branca, branca, invade todos os poros do meu corpo e ainda me faz acreditar nas pequenas felicidades, aquelas, como uma pessoa enrolada numa toalha demorando ao meu lado, demorando, demorando até que virasse poesia. Cabelo molhado tocando o meu corpo com carinho, me tocando de leve, bem leve, como se fosse filme. Uma pessoa que me fizesse rir quando eu a tocasse, que me desejasse bom dia como se fosse um desejo de bom ano, que me dissesse "te amo" olhando para os meus olhos e que ainda visse algum brilho neles, como num quadro impressionista. Que me entendesse, que compreendesse que eu não sou aquilo que dizem e mesmo assim me achar interessante o suficiente para estar ao meu lado.
Mas as palavras não são boas o suficiente, porque eu sou comum demais, porque tenho um coração que bate acelerado demais, mãos que tremem demais, uma pessoa desastrada demais, vira-lata demais, tudo demais. E tudo tão pouco pra dizer da sua presença branca e do bem que você me faz...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Morte é tudo e não é nada

Mais uma vez, como se fosse sina, me deram pra ler mais um livro do psicoterapeuta Irvin D. Yalom, e como toda capa desse autor, vem escrito: do mesmo autor de Quando Nietzsche Chorou.
Ok, sem entrar, mais uma vez, no mérito se tal livro é bom ou não (minha opinião ficou bem clara em outro post), resolvi dar mais uma chance - já dei três - para o Dr. Yalom e ler esse que foi nomeado de: "De frente para o sol - Como superar o terror da morte". E já tenho problemas com o título do livro, primeiramente me soa como livro de auto-ajuda, e depois porque não acredito que o terror da morte se supere.
Mas estava lendo os primeiros capítulos e já me deu vontade de escrever sobre as minhas primeiras impressões: O fato é que todos nós morreremos e que ninguém sabe lidar concretamente com a angústia de não pertencer mais a este mundo, de imaginar o que não pode ser imaginável, porque não há em nós memórias - conscientes ou inconscientes - a respeito de morrer (E Freud já sacou isso), porque ainda estamos vivos. Não há registros, nem impressões. O que existe é medo, é fobia, são síndromes denominadas "angústias de morte".
Yalom cita o conhecidíssimo e reconhecidíssimo filósofo alemão Heidegger e sua contribuição com uma das dialéticas mais conhecidas no mundo da filosofia: Há dois modos de existência; o primeiro é o cotidiano, em que você está interagindo e integrando no ambiente de maneira satisfatória e o segundo: o modo ontológico, que é a concentração da pessoa naquilo que ela é. E existe de fato uma diferença abismal entre como as coisas são e o que são. Nós, seres humanos falhos nos distraimos bastante na obtenção de poder, dinheiro, satisfação sexual, mas isso não é o que somos. A nossa distração é para fugirmos daquilo que nos importa: a consciência da existência, da mortalidade e características imutáveis da vida, "como também fica mais ansioso e inclinado a propiciar mudanças significativas".
E é nessa parte em especial que eu tenho que dar a mão à palmatória e concordar com o Dr. Yalom: Muitas histórias de mudanças dramáticas e duradouras catalisadas pela confrontação da morte pode fazer do sujeito uma pessoa melhor, mais dedicada à fenômenos humanos que realmente interessam e valem a pena. Reorganizam suas vidas e suas prioridades, descartando as banalidades e superficialidades da vida e adquirem o poder de escolher não fazer as coisas que de fato não querem fazer. Comunicam-se mais profundamente com as pessoas que lhes fazem bem e neste momento, o poder, o dinheiro, a carreira já não são tão importantes ou nada importante.
Quando você trabalha com pacientes terminais, como eu trabalhei, você ouve relatos de uma diminuição do medo que tinham de outras pessoas, maior disposição de se arriscar, de amar e menor preocupação em relação à rejeição. Assim como Freud sugeriu que os melancólicos (e que isso era realmente uma pena) entendiam e tinham consciência plena do funcionamento da vida apenas por estarem doentes, os pacientes só conseguem dar valor as coisas fundamentais quando estão morrendo.
A verdade é que não podemos mudar o nosso destino final, mas podemos mudar a vida enquanto temos saúde (não precisamos estar doentes) para termos necessariamente essa percepção.
A angústia da morte existe e é inerente ao ser humano, psicológicamente não há muito o que fazer, há alívios imediatos, mas não duradouros. Então, com poucas discordâncias, Irvin D. Yalom está conseguindo me surpreender nestes primeiros capítulos de seu livro.
E as minhas duas futuras esperanças: que o livro continue seguindo esse rumo e que o psiquiatra, terapeuta e escritor desista de escrever livros ficçionais e foque mais em sua experiência clínica.
E vambora viver decentemente antes que seja tarde demais.