
A Editora Leya está cada vez me surpreendendo mais! Dessa vez foi o livro da queridinha e protegida de Rubem Fonseca: Paula Parisot, "Gonzos e Parafusos". O texto não chega a 200 páginas mas é denso, mordaz e utiliza de muito humor negro. Não é um livro difícil nem tampouco fácil: é dolorido.
A psicanalista Isabela, assim como muitas analistas, é um ser machucado. Através de uma narrativa em primeira pessoa, Isabela fala de sua infância, seus pais, seus avós e seus poucos amigos e quase nenhum romance da vida adulta. A psicanalista do livro tenta se matar por duas vezes sem êxito. Não tem alegria de viver, nem muita vontade de morrer. Sobrevive aos dias, ao tédio, à vida burocrática, ao trabalho que nem sempre é grandioso e vive a loucura "normal" dos dias atuais: A falta de perspectiva, o receio da idade, o tempo que passa sem nenhum conquista valiosa, o peso da culpa, de remorsos, de tristeza, de perdas...
Paula Parisot chegou a publicar um livro de contos pela Companhia das Letras, chamado: "A Dama da Solidão", mas foi com esse trabalho atual que chamou atenção dos leitores e de grandes figurões. Não é pra menos. A autora escreve com traços clássicos uma história atualíssima e que dificilmente o leitor não se identifica.
Mas sejamos honestos: Parisot não é pra qualquer um. Ela cita determinadas coisas que só uma pessoa com uma certa bagagem cultural consegue absorver, por exemplo, as obras do pintor Gustav Klimt e de Egon Schiele e algumas pinceladas da teoria freudiana. Mas mesmo assim, ela consegue ser popular ao descrever sentimentos universais que tocam todos sem necessariamente nenhuma bagagem intelectual. O problema é que essas pessoas não perdem e não vão perder seu tempo comprando uma obra de uma escritora pouco conhecida. As pessoas já não têm o hábito de ler, e quando isso acontece, procuram logo a lista dos mais vendidos.
Um lado meu fica feliz. Não é todo mundo que merece uma escrita primorosa, bem cuidada e com segurança, são poucos os destinados a lerem algo do tipo de "Gonzos e Parafusos", pois Paula permanece com uma linguagem popular, mas de jeito nenhum é uma escritora pop. E que seja assim!
"Como disse Freud: A vida se empobrece e perde interesse quando a maior ficha do jogo da vida, a própria vida, não pode ser posta em risco.Por favor, não me critiquem dizendo que uso e abuso de citações freudianas. O que posso fazer? A verdade é: Freud nunca é demais." Pag 108.
Melhor ainda, se o livro for lido ao som de um jazz, a dica fica por conta de Charlie Rouse e seu cd, "epistrophy".
Obs: a imagem anexada nesse post é de Paula em uma de suas performances (ela também é performática) para divulgação do livro ao lado de Rubem Fonseca.




















