sábado, 28 de julho de 2007

And it Could be the Last Time You See me Alive

Mais um avião caiu, vidas se acabaram, sonhos se despedaçaram em questão de segundos. Celebremos então a estupidez humana, tanta hipocresia e afetação. Celebremos a imprudência, a indiferença e a banalização de vidas.
Na vitrola toca melancólicamente Radiohead:

Too hard on the brakes again
What if these brakes just give in?
What if the car loses control?
What if there's someone overtaking?
I'm going out for a little drive
And it could be the last time you see me alive
There could be an idiot on the road
The only kick in life is pumping his steel

Wrap me up in the back of the trunk
Packed with foam and blind drunk
They won't ever take me alive
'Cause they all drive...

Don't die on the motorway
The moon would freeze, the plants would die
I couldn't cope if you crashed today
All the things I forgot to say
I'm going out for a little drive
And it could be the last time you see me alive
What if the car loses control?
What if there's someone overtaking?

Wrap me up in the back of the trunk
Packed with foam and blind drunk
They won't ever take me alive
'Cause they all drive killer cars

Wrap me up in the back of the trunk
Packed with foam and blind drunk
No they won't ever take me alive
'Cause they all drive killer cars
They all drive killer cars
They all drive killer cars

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Processo de Joana D´Arc

Foi lançado em DVD, o filme do francês Robert Bresson, de 1962 sobre o processo que culminou na morte da heroína francesa. Bresson foi um dos maiores gênios do cinema contemporâneo, realizou filmes memoráveis como Pickpocket e Um Condenado à Morte Escapou, além deste Procès de Jeanne D'Arc.
Bresson cultivava a idéia de trabalhar com atores desconhecidos, que ele chamava de "modelos", assim, na opinião dele, o filme se compreendia de maneira mais real. Quem interpreta a Joana de Bresson é a completamente desconhecida Florence Delay.
Este filme, diferente de muitos que retratam a vida e a morte da santa, mostra apenas o julgamento, prisão e execução baseado nos autos do processo. Bresson só coloca em seu filme o essencial, nada do que "poderia ter acontecido", ele é fiel aos documentos históricos. Por isso a fita tem a duração de apenas 65 minutos.
Eu já assisti cerca de 6 filmes realizados sobre Joana, e este ao lado do filme mudo de 1928, "A Paixão de Joana D'Arc" de Dreyer são com certeza os mais fiéis e importantes ao contarem o martírio dessa que é uma das figuras mais importantes da história da humanidade.
Joana, a moça/soldado, a herege/santa, a donzela virgem/homossexual é motivo de fascinação até os dias de hoje exatamente por tantas contradições em relação à sua imagem. Mas, porque tanta fascinação? Se olharmos os fatos com cuidado, encontraremos o seguinte: a brevidade de sua carreira, sobretudo os aspectos vitoriosos, Joana teve sucesso militar durante menos de 6 meses, foi soldado ativo por pouco menos de 1 ano, foi por mais tempo prisioneira do que guerreira. Morreu aos 19 anos. Uma breve carreira e, pelos padrões comuns, malsucedida. Por que então nos lembramos dela?
Não a lembramos como um tipo de vítima. Lembramos dela como alguém que nada reteve; veio do nada e deu tudo, postou-se contra aqueles muito mais bem-dotados que ela. Era analfabeta, e mulher.
Sempre precisamos de alguém como Joana, alguém que nos desinfete de nossas tendências vergonhosas ou mesquinhas. Se podemos amá-la, não somos um povo que odeia mulheres. Se podemos chamar de triunfo a sua morte, não somos oportunistas, papadores de aposentadorias que medem o sucesso apenas pelo que parece dar certo. Se nos dedicarmos a ela, somos criaturas superiores ao que sugere a maneira como vivemos. Precisamos dela como a heroína de nossos melhores eus.
Mas, a parte que eu mais gosto de Joana e que é retratada com genialidade por Bresson é a parte menina, já que era isso que ela era. Uma menina que lutou pela sua crença e sua fé, uma menina que tinha medo de morrer, que tinha medo da fogueira, que chorava, que muitas vezes não sabia o que fazer ou dizer. Essa é a parte mais humana, é o aspecto humanizante da santa francesa.
Joana D'Arc era tudo isso, e por isso é lembrada e cultivada até hoje.
Na falta de heróis modernos, ficamos com aqueles que já conhecemos bem, pois precisamos de heróis, mais do que isso, precisamos de heróis que choram.


Esse texto foi publicado originalmente no "Caderno de Cinema".

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Coisa à toa

Quando a dor é tão grande que parece uma faca enfiada na boca do estômago, você ainda consegue pensar em algum tipo de resgate?
Sempre acreditei que sobreveveria à filmes de terror.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

A Constituição do "Eu" na Modernidade

No Renascimento (séc XVIII), já é clássico dizer que nasce o humanismo moderno e assim sendo, é neste período que passaria a se afirmar uma concepção de subjetividade privatizada (idéia de liberdade do homem e sua posição como centro do mundo).
Anterior ao Renascimento, a Idade Média é a época da “nação”, do grupo (religioso). Haveria uma ordem absoluta, representada por Deus e seus correspondentes terrestres: a Bíblia e a Igreja.
O Humanismo renascentista foi a convicção de que o mundo natural é o reino do Homem, tornando-se exaltado com o valor de seu corpo e de seus prazeres. Mas, diferentemente da Idade Média, o Homem do Renascimento têm que procurar uma formação, ele deve constituir-se enquanto humano. Se o homem não nasce com o seu destino predestinado (por Deus, onisciente, onipresente e onipotente), ele próprio deve se formar, se educar. Se os homens acreditavam ter um ponto de referência externo (um centro do mundo) sobre o qual podiam se apoiar, agora já não podiam contar com essa certeza.
Luis Cláudio Figueiredo em “A Invenção do Psicólogo”, já observou que o Homem é o centro e é livre para tornar-se o que quiser, mas ele não é propriamente nada, pois há uma negatividade deste Homem, e é justamente esse vazio que ocupa o lugar do centro.
Para a constituição da Psicologia como ciência no século XIX foi necessária uma demanda, essa, chamada de “crise da subjetividade individualizada”. O Homem têm sua subjetividade individual, mas está perdido em sua individualidade. Ele já não tem noção do “caminho” que deve seguir, de metas e nem de moralidade.
Se na Idade Média havia um referencial – Deus – e se no Renascimento havia uma liberdade jamais sonhada pelo Homem, usufruindo prazeres múltiplos, hoje o Homem não têm nem a Deus, nem prazeres mínimos; este é o legado que nos foi proporcionado.
Queremos a companhia de um “outro” ao mesmo tempo em que queremos preservar nossa “individualidade”, desejamos dinheiro para compras que nos fariam “mais felizes”, mas quando o temos, não sentimos felicidade.
Desejamos tudo, conseguimos alguma coisa e não estamos felizes com nada. Esperando sempre, o próximo carro, um emprego melhor, um namorado mais bonito, o filme da semana. Na Contemporaneidade, esperamos tudo, esperando, talvez, um dia que possamos ser felizes.
De modo geral, esse é o modo da Psicologia pensar o seu sujeito. O interesse é de ressaltar a implicação da Psicologia na Modernidade ocidental, e a Psicologia ocidental tem como fundamento a subjetividade.
As Psicologias procuram responder de diversas maneiras às demandas surgidas da crise da subjetividade moderna. Realmente, não é à toa que suas linhas principais tenham tido início no fim do século XIX. Em alguns casos, as teorias alinham-se a uma ou algumas destas tendências, quer para afirmar a subjetividade, quer para, de fato, pô-la em questão.
Coloquemos então a subjetividade do Homem infeliz do século XXI como o centro do mundo.

domingo, 10 de junho de 2007

Qual a questão?

Recebi um e-mail interessante hoje de um conhecido que acusa a atriz norte-americana Angelina Jolie de divulgar e veincular sua imagem, ganhando dinheiro e fama com causas humanitárias.
O e-mail é extenso, raivoso e agressivo; uma das partes que me chamou atenção: "Se a atriz realmente se preocupasse com os refugiados políticos, não precisaria necessariamente divulgar tudo o que faz, os grandes humanitários sempre foram discretos".
Acho relevante colocar alguns pontos de vista sobre a questão, até porque penso diferente do meu colega que nomeou o e-mail de "Americanos Marketeiros".
Segundo fontes - verdadeiras ou não, vai saber? - a atriz dedica um terço do seu tempo percorrendo o mundo como embaixadora da Organização das Nações Unidas, doa uma quantia exorbitante em dinheiro e é figurinha carimbada em congressos e fóruns de economia global. O site da organização mundial sobre refugiados anunciou mês passado que o acesso de internautas e o aumento de questões sobre os refugiados quadriplicou nos últimos três anos - exatamente - por causa da "marketeira americana". O site mundialmente famoso, You Tube, registrou que entre os vídeos por celebridades mais procurados é o de Jolie, com cenas e fotos dela visitando países africanos e asiáticos. Além de estar em negociação para a legalização da adoção de seu quinto filho, sendo quatro deles, adotados nesses mesmos países.
Por mais que eu pense, e minha razão pode ser bastante limitada, não encontro uma resposta adequada para algumas perguntas: O que exatamente " a marketeira americana" ganhou com tudo isso? Ficou mais famosa? Ganhou mais dinheiro? O mesmo dinheiro que ela doou? A mesma imagem que ela veincula para ficar mais famosa, assim, mais rica, assim, uma das mais importantes financiadoras de projetos sociais?
Se for isso, ótimo, eu mesma ajudo a destacar seu nome em prol da filantropia mundial! E não deveriam todos fazer o mesmo?
O e-mail ainda me passou a impressão de preconceito com o fato de Angelina Jolie ter nascido nos Estados Unidos. Seria ela diferente se tivesse nascido no Brasil? E se eu usasse do mesmo preconceito refutável e afirmar que se aqui ela tivesse nascido, seria marginal, pobre ou prosituída? A conexão faria sentido? Todas as brasileiras são marginais, pobres e prostitutas? Todos os norte-americanos são alienados e trancafiados em sua própria bolha?
As teorias aqui são exatamente a de papéis sociais e de ideologia. Pode Angelina Jolie, a filha rebelde, a adolescente petulante, a colecionadora de tatuagens e parceiros sexuais, a mulher incestuosa que se deita com o irmão, àquela que se mutila com facas, ser a mesma pessoa que hoje dedica o seu tempo constituíndo família e visitando lugares de décimo mundo? E pela décima vez, a questão: Por que uma determinada pessoa só pode ser uma coisa? É um maniqueísmo vagabundo de horóscopo de jornal de quinta categoria. Ou a questão seja: Por que a pessoa se torna aquilo que os outros enxergam dela?
Não, as questões não são essas. O mundo se transformou, nunca as pessoas foram tão cínicas a ponto de desacreditar tanto na própria credibilidade de ser (traço) humano.
A questão pode ser essa: Por que temos todos que ser tão ordinários que além de efetivamente não crer e não agir, ainda duvidamos e rimos da fé alheia?
Angelina Jolie nunca foi a questão.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Brincadeira de adulto

A gente brinca enquanto a vida brinca com a gente; vai se levando e - provavelmente - não vai se vivendo.
Em um momento a morte brinca com a gente e não há mais volta. Mas nunca pensamos nela como algo que provavelmente vai acontecer, e ela é tão provével e real como nossa brincadeira de negação. Quanto tempo mais a gente vai brincar de fingir?

"Apesar de enlouquecerem,
serão sãos
Apesar de afundarem no mar,
voltarão a se erguer
Apesar de amantes se perderem,
o amor não se perderá.
E a morte não dominará". Dylan Thomas

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Cansaço

Eu estou cansada de tanta fome. Cansada da fome que não se mata, mas que eventualmente te mata aos pouquinhos. Do mundo belo e cruel eu também estou cansada, de me retirarem tanta energia e vontade de vida. Cansada da banalização do que é essencial, da glorificação do ordinário, da mesquinhez.

Do amor me canso às vezes, do trabalho que dá, que mata também. Cansada de não entender o significado de tudo isso, das dores, das perdas, dos infortúnios. Exausta de me compreender tão pouco e dar quase nada aos que amo – usando a palavra amo – porque não sei de outra que carregue tanto peso. Extremamente cansada de ver pessoas se matando, aos poucos, lentamente, rastejando um pouco de vida, de carinho. A minha solidão não me cansa, me exaspera a solidão e o frio na alma de quem pertenço um pouco. Cansada de não saber rezar e não saber a quem pedir um pouco de bons tratos a quem merece, labutando diariamente um pouco de paz.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

É Proibido Proibir

Nem precisa dizer que o Papa esteve pelo Brasil; ele esteve em todos os noticiários, jornais, programas de televisão massissamente, e pode parecer desrespeitoso, mas cansou. Cansou não porque ele não mereça atenção, cansou porque o que a Igreja Católica prega nos dias atuais é quase surreal. E eu sempre me pergunto, os membros dessa Igreja (não que as outras não tenham problemas, mas estou falando da católica em especial), vivem em que mundo?
Uma das primeiras mensagens do Papa ao chegar ao Brasil foi a condenação do aborto, depois vieram outros vetos, como o sexual antes do casamento, preconceito aberto contra os homossexuais, o não à eutanasia e por aí vai.
Quantas pessoas se mantém castas até o casamento? Desde quando no mundo atual, sexo é só para procriação? Não sou a favor do aborto, e não acredito que ninguém seja, assim como é difícil entender a escolha pela eutanásia; mas sou a favor da não proibição, sou a favor da liberdade de escolha, sou a favor de uma crença que não pregue o pecado, mas a salvação. Já repararam que tudo, absolutamente tudo na Igreja Católica é pecado? E lá se vai a histórinha de paraíso, inferno e o tal do purgatório. Quem de fato, acredita no tal do limbo? Parece conto pra criança permanecer obediente. O problema (acredito eu, que seja um problema), que muitos adeptos dessa fé também acreditam, e por mais que o desejo seja grande de por exemplo se aventurar em um relacionamento homossexual, de realizar um aborto porque não têm condições de criar mais um filho numa pobreza absurda, por medo do "juízo final", eles se corrompem (corromper a vontade e o desejo, em suma, a condição humana de ser livre) para viver nas leis de uma Igreja que vive cercada de luxos, enquanto aqui, as pessoas morrem de fome.
Aceito a fé, acredito na força da fé, mas não acredito e desaprovo o fanatismo religioso que mais do que promover a paz, promove a segregação de milhões de indivíduos.
A Igreja Católica poderia repensar os caminhos que percorre, e estar plenamente consciente de que os problemas na Terra existem, e para muitos, o paraíso ainda está muito distante.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

A Hora da Estrela

O Museu da Língua Portuguesa está comemorando um ano de funcionamento em São Paulo e nada melhor que uma exposição da escritora ucraniana/brasileira Clarice Lispector.
Fui conferir correndo - ainda mais sabendo - que tinha gente muito, muito bacana por trás desse projeto, como Julia Peregrino, Ferreira Gullar e Daniela Thomas.
Trinta anos após sua morte Clarice é tratata como a maior diva da literatura brasileira. Evasiva, confusa, contraditória, difícil; ela é tudo isso e mais que isso, é necessária. Num mundo onde o indivíduo se perdeu dele mesmo, a escritora é um convite para um mergulho na própria alma, e o que é nossa alma senão todos os adjetivos impostos à Clarice? Mas já digo que entrar no universo particular da escritora não é nada fácil, a gente se perde, se acha, se perde e se acha no nosso próprio mundo subjetivo. Ler e amar a obra de Clarice é amar o que há de mais puro, frio, ingênuo, cruel e triste de nossa condição humana, ler Clarice com afinco é mais informativo e ilustrativo que cursar todo um curso de Psicologia, ler Clarice é como enfrentar a própria vida árdua de cara, as mazelas humanas; um mundo caótico, denso, sofisticado. O mundo real.
Realmente, Clarice Lispector não é para todo mundo (e isso não é ser elitista), é só para quem quer enfrentar o medo do escuro que há dentro de todos nós.

"Somente na fotografia, ao revelar-se o negativo, revelava-se algo que, inalcançado por mim, era alcançado pelo instantâneo: ao revelar-se o negativo também se revelava a minha presença de ectoplasma".

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Estranheza

Este é um daqueles dias em que me senti sozinha mesmo estando cercada de gente.
A diferença é que hoje o sentimento de solidão não me causa estranheza, nem tédio, nem desespero, nem dor. Nem nada...minto, causa uma paz surpreendente. E isso é estranho.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Breve Nota Sobre o Amor

Nos últimos dias conversei com alguns amigos sobre o amor, a paixão e o desejo. Coisas distintas que muitas vezes colocamos no mesmo pacote. A grande pergunta das conversas ou do meu monólogo é se o amor é sempre fadado ao fracasso. Algumas pessoas responderam que sim, que todos os amores, um dia, acabam. Outros responderam que ele muda de forma conforme o tempo passa, e muito poucos disseram que ele sobrevive meio a vida caótica que levamos.
Eu sou da terceira opinião, afinal, por que amor materno não acaba nunca? Será ele tão diferente da vida à dois? Não acho que seja, afinal, tanto num quanto no outro, é preciso se dedicar, se doar, conseguir receber, experimentar, sofrer, aprender. E por que será que temos mais paciência para fazermos isso com um filho em relação à um namorado/a ou marido/esposa?
Quem foi que disse também que amor de mãe é incondicional? Já senti muitas e outras tantas vezes o olhar de ódio da minha mãe direcionado à mim, de desapontamento, de cansaço, e de vergonha. Também se odeia filho, mas filho também é perdoado mais facilmente.
Então porque alguns relacionamentos de casais duram tão pouco? Quando começam juntos, se amam desvairadamente, dois meses depois, se odeiam loucamente. Por que não temos a mesma paciência com o outro como se o outro fosse de fato (naquele momento) único, como um filho?
Só consegui chegar numa resposta que é meio clichè, mas que me parece verdadeira. Porque desejamos e nos apaixonamos, mas não amamos. E podemos desejar muitos e muito, podemos nos apaixonar diversas vezes por mês, podemos levar pra cama desenfreadamente inúmeros casos (desejando e passionalmente), podemos até ter carinho, mas são poucos que conhecem de fato o sentimento amoroso, esse que te faz ficar acordada, preocupada, este que sabe enxergar o defeito do companheiro/a, porque só a paixão é cega, este que se alimenta da mediocridade dos dias, do passar das horas, este que te absorve e te alimenta, este que faz a pessoa viver para o outro além de viver apenas para si, o único sentimento capaz de perdurar.
Que nos apaixonemos menos e nos amemos mais.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Mudando de Ares

Hoje me contaram uma daquelas piadas sarcásticas de psicólogos. E pela primeira vez eu ri, gargalhei.
Aos poucos, aos pouquinhos, já estou conseguindo me desvincilhar dessa imagem, dessa categoria. Amo a Psicologia, mas ela é para outro tipo de gente, não pra mim. E eu me sinto tão bem!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

O massacre, o herói e a heroína

Após a refilmagem de "O Massacre da Serra Elétrica" de 2003 do diretor Marcus Nispel, chega às locadoras "O Massacre da Serra Elétrica, o início". Quem me conhece sabe que eu gosto desse tipo de filme. Gosto do terror e do que ele proporciona nas pessoas que assistem. Segundo Freud em seu artigo de 1942, "Personagens Psicopáticos no Palco", o fator primordial no drama é o desabafo dos afetos do espectador, e o gozo que disso resulta, de um lado, o alívio proporcionado por uma descarga ampla e de outro, a excitação sexual que aparece como subproduto todas as vezes que um afeto é despertado e que confere aos que assistem o tão desejado sentimento de uma tensão crescente que eleva seu nível psíquico.
O espectador vivencia muito pouco, sentindo-se um "pobre coitado" com quem não acontece nada, faz tempo que amorteceu seu orgulho que situava seu "eu" no centro do mundo e vê-se obrigado a deslocá-lo: anseia por sentir, agir e criar tudo a seu bel-prazer, em suma, por ser o herói. E o diretor/autor/ator lhe possibilita isso, permitindo-lhe a identificação com o herói da história. E quando nos posicionamos nesse lugar nos poupamos também, pois sabemos que nossa posição de heróis seria impossível sem dores, sofrimentos e graves tribulações que quase anulariam a excitação. Sabemos que temos apenas uma vida e que podemos perdê-la no primeiro combate com o "mal". Por consequência, nosso gozo têm por premissa a ilusão, ou seja, nosso sofrimento é mitigado pela certeza de que em primeiro lugar é um outro que está ali atuando e sofrendo na nossa televisão, e em segundo, trata-se apenas de um jogo teatral, que não ameaça nossa segurança pessoal com nenhum perigo. Podemos então desabafar em todos os sentidos em cada uma das cenas grandiosas, ou não, da vida representadas por outrem.
É interessante notar por exemplo que "O Massacre..." faz mais sucesso com as mulheres, já que temos uma heroína, no caso da refilmagem, Jessica Biel, assim como no filme de Quentin Tarantino: "Kill Bill", representado por Uma Thurman, ou a Lara Croft de Angelina Jolie...já os homens preferem os heróis de Bruce Willis em "Duro de Matar", ou Stallone em "Rocky".
Isso vale também para tudo que nos cerca de um certo medo. Por exemplo, já se perguntaram por que gostamos tanto de brinquedos "perigosos" nos parques de diversão?

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Travessuras da Menina Má

Terminei ontem, depois de ler por dois dias, o romance do peruano Mario Vargas Llosa. Travessuras da Menina Má é uma obra-prima, e como há muito tempo eu não lia algo que me arrebatasse por completo, este me arrastou para travar batalhas com o meu próprio eu, com as minhas próprias fraquezas, crenças, descrenças e travessuras.
Embora seja um livro fácil de ser devorado, eu não consegui ler compulsivamente sem deixá-lo afastado de mim por algumas horas, porque não é apenas uma narração sobre encontros e desencontros amorosos de um casal, mas sim, da eterna luta de nos tornarmos algo que um dia a gente sonhou ou imaginou que seríamos. E a verdade? A gente nunca se torna completamente o que havíamos sonhado. Com o tempo nos tornamos mais fracos, mais acomodados, mais distantes, menos gente. Parece que o tempo vai corroendo todas as nossas boas vontades, e me parece que conseguimos esquecer mais facilmente alguém que amamos.
Com o decorrer do livro fui tomando consciência de coisas que demoraria meses em análise, sim, o soco no estômago veio de uma só vez, e entre choros quietos e soluços abafados, triste e alegre, no final, eu era mais eu.
Certas obras nos fazem lembrar que sem elas estaríamos ainda mais sozinhos e acanhados. Menos sonhadores e mais egoístas. É pena que não nos lembremos disso todo o tempo, é pena que um livro desse não nos caia de bandeija em todos os momentos. É pena que nos esquecemos que somos ruins, mas podemos ser bons em determinados momentos e que maniqueísmo só existe em livro de banca de revista e nas novelas globais.
Nós somos tanta gente e que possamos nos reinventar ainda mais.
Salve, salve Llosa e obrigada.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Freud: Gênio ou engodo?

Em "A verdade", uma postagem anterior do blog, eu quis ironizar um pouco a condição psíquica dos que estudam e trabalham para analisar as pessoas que chegam em seus consultórios. Mas quis também mexer com a imagem social que os psicólogos são pessoas normais e bem resolvidas, uma postura que se vende para muitos, mentira das boas.
Partindo do pressuposto que psicólogos são gente, e gente têm problemas, os psicólogos também têm. O que difere então eles (no caso eu sou da categoria) e os outros?
Partido de outro pressuposto, de que além de psicóloga, sou também psicanalista, ficarei com o embasamento criado pelo velhinho de charuto. A Psicanálise existe há mais de 100 anos e mesmo não sendo catalogada como "ciência" por falta de um objeto de estudo positivo, observável e experimental, funciona. Se não funcionasse por que ainda estaria no "mercado"? Se não podemos constatar sua eficácia nos laboratórios, podemos verificar seu sucesso com a melhora psíquica daqueles que se deitam no divã.
Só que ultimamente a Psicanálise tem sido alvo de muitas críticas, no caso mais recente os livros "Mentiras no divã" (ficçional) e "O Livro Negro da Psicanálise" (livro que pretende ser um documento histórico) são exemplos disso. Ok, a teoria criada por Freud não é perfeita, longe disso, foi posta a prova por outros psicanalistas e melhorada com o tempo. Mas antes de ser funcional e pragmática, a Psicanálise tem uma importância histórica que muitos esquecem ou desconhecem: Freud conseguiu livrar o homem da barbárie humana e ao mesmo tempo foi convicto do papel que o Homem exerce na sociedade.
Freud pensou em sua teoria como uma ferida ao ego do Homem, e o tirou de uma pretensa posição de centralidade e privilégio no mundo. Ele ofendeu a megalomania humana e procurou provar ao "eu" que ele não é senhor nem mesmo de sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente na sua vida. Sendo assim, na perspectiva freudiana, toda ação humana pode ser tomada como sintoma, ou seja, como expressão de um outro sentido distinto, do imediato não apreensível imediatamente. (Será que só eu acho genial isso?)
Se me pedissem para definir a Psicanálise em uma frase diria que ela é a arte da interpretação.
Posso até estar sendo bastante imparcial, mas na minha humilde opinião, esse cara que muita gente critica foi uma dos maiores gênios da História da humanidade.
O que difere um psicanalista que certamente tem seus problemas particulares e os outros é que um deles tem a chave para essa interpretação.

Obs: Gean, espero que pelo menos parcialmente, eu tenha colocado o meu ponto de vista sobre a sua questão.