Já ouvi alguma vez que no Brasil existem mais prêmios sobre música do que música propriamente dita. Acertadíssimo! E emendo: Os prêmios são tão horrorosos e tenebrosos que já deixei de assisti-los há muito tempo.
Fico sabendo através de jornais os ganhadores e lamento, é claro. Não só os ganhadores, mas os indicados, em sua esmagadora maioria, péssimos.
Ontem ocorreu o prêmio Multishow. Vamos à algumas pérolas:
Melhor cantor foi para Samuel Rosa do Skank. Não nutro nenhuma simpatia especial por ele, mas o cara estava concorrendo com Caetano Veloso (não sei porque já que Caetano não lançou nada novo esse ano), mas já devia ter perdido, e entre eles estava: Di Ferrero (NX Zero) (?????), Lucas Silveira (Fresno) (????????????), e Dinho Ouro Preto (ok, passa...).
Melhor cantora foi para a chatésima, Ana Carolina, que concorria com Maria Gadu (essa aí já virou estrelinha), Pitty (gosto de algumas poucas coisas), e as baianas populares e idênticas, Ivete Sangalo e Cláudia Leite.
Maria Gadu ganhou a categoria de melhor álbum (não ouvi, mas francamente, melhor álbum entre todos os lançados na música brasileira nos últimos 12 meses? me poupe) e concorria com os álbuns de NX Zero, Hori (quem é esse povo?), Lucas Silveira (nunca ouvi falar) e Pitty.
O melhor clipe foi para a banda adolescente NX Zero, que concorria com outra banda adolescente colorida e intragável, Cine, Pitty, Skank e Hori. (lembrei, essa bandinha é do filho do Fábio Jr.)
Melhor grupo: Banda Cine. É pra chorar, porque os concorrentes também estavam "a mesma altura". NX Zero, Restart, Titãs e Skank.
Como instrumentista, o Rodrigo Tavares da banda Fresno ganhou do superfantástico Cesinha que já tocou com Marisa Monte e Vanessa da Matta, (único ao lado de Caetano Veloso, de todos os indicados a este prêmio), a serem realmente estupendos e merecedores de algum prêmio.
O show de bizarrices não pára por aí: melhor show: Ivete Sangalo, melhor música: Recomeçar, do Restart, revelação: Luan Santana.
Eu não sou dessas por aí que lamenta a situação atual da música brasileira e fica ouvindo Tom Jobim, Elis Regina, Toquinho, Nara Leão e Vínicius o dia todo, porque acredito realmente na potencialidade da nossa música. Há gente fabulosa por aí, e não falo só dos pouco mais antigos como Marisa Monte e Nana Caymmi por exemplo, mas de gente como Lenine, Otto, Pato Fu, Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Ceumar, Mart'nália, Luiza Possi, Mariana Aydar, Roberta Sá entre tantos outros.
Mas é isso aí, esse tipo de prêmio representa o gosto popular, e desculpe a palavra, mas o gosto popular é foda de tão ruim. A educação cultural é zero. O conhecimento musical é nulo. O bom gosto não existe e a gente então tem que se contentar com essas musiquinhas fuleiras desses artistas não menos fuleira tocando nessas rádios trágicas que existem.
Hoje em dia vejo que a educação que tive dos meus pais e familiares na infância quando eles colocavam na vitrola um disco de Chico Buarque, ou de Milton ou de Caetano me deu subsídios para ter um esclarecimento maior do que presta. Pena que a maioria das famílias não são como a minha.
Mas cultura, galera, adquire-se com o tempo também. Tem gente que é acomodada e burra mesmo. Logo merecem essa galera torpe. Como escreveu Nando Reis, cantado lindamente por Marisa Monte: "Para você o que você gosta, diariamente".