sexta-feira, 9 de março de 2007

A Era da Razão e a Explicação de Atos Bárbaros

Toda vez que ocorre um crime hediondo que estampa todas as capas de revistas e todas as manchetes de todos os jornais, como estupro, assassinato, matricídio, parricídio, abuso contra crianças e outras atrocidades, sempre existe alguém, ou, sempre existem muitos que pretendem explicar o acontecimento. Essas pessoas em geral, usam de artimanhas fáceis, como os milhares de livros na estante que também pretendem ter a definição e explicação de todos os atos humanos.
Alguns destes livros culpam a genética, outros, a infância horrorosa do(s) algoz (es), outros, vão além e juntam tudo no mesmo pacote para presente.
Estes livros se baseiam em uma única coisa: a razão. Sempre que algo que não compreendemos e nos assusta acontece, temos que tentar explicar com a nossa razão de “seres-humanos espetaculares” que somos, e TEMOS que encontrar respostas.
E algumas pessoas, a grande maioria, concordam que eu deveria pensar da mesma maneira, porque eu passei, passo e vou continuar passando meus dias, estudando comportamentos de seres humanos. E mais: eu deveria ter a obrigação de compreender e explicar para os “leigos” porque cicrano fez tal coisa com beltrano.
Pois bem, penso diferente da maioria dos estudiosos: Não entendo muita coisa, muita coisa me escapa, a minha razão é limitada, porque não tenho só razão dentro de mim. Como ser humano também me choco e me espanto pelas barbaridades que parecem banais e cotidianas. Posso tentar explicar, como psicanalista, posso determinar que alguém matou o pai, porque realmente teve uma infância marcada por sofrimento, dor, perdas, traumas e etc. Posso também, recorrer à Psicologia Social e suas teorias para concordar que àquele sujeito determinado não tinha voz no grupo, não tinha ideais, era manipulado e um dia se cansou.
Mas, a verdade, é que minha única explicação para este tipo de coisa é: não sei, não o conheço, não posso explicar. Por que haveria de saber? Porque a nossa sociedade é tão cartesiana e positivista a ponto de querer tudo de uma maneira fácil, como num livro de auto-ajuda? Os cartesianos e positivistas esquecem de uma particularidade, que é a particularidade do próprio sujeito que cometeu o determinado ato. Não somos iguais. Uma explicação disto: Muitos apanham, são humilhados e sofrem de maus tratos quando crianças, mas isto não é uma condição universal para que todos eles se tornem assassinos ou delinqüentes quando adultos.
Mais ainda, eu sei que as pessoas precisam de explicações para atos que as assustam, porque lhes conferem um pouco mais de segurança, de conforto num mundo que é a encarnação da atrocidade.
Se quiserem tão detalhadamente impor razões para todos os comportamentos humanos, então peço, imploro, que primeiramente expliquem detalhadamente o mundo que vivemos
.
Este texto foi publicado originalmente no já extinto Plano B.

6 comentários:

pedro disse...

Já adorei;belo começo Ma/ v. sabe que eu adoro tudo q. v. escreve/bjo.

Gean disse...

Muito bem colocado se pensarmos em indivíduos! A sociedade na sua forma de se organizar cobra suprema racionalidade, a relidade se impõe magestosa!( a racionalidade de uma simples fila é bem ilustrativo!)Mas... o pessoal sempre leva a melhor sobre o racional!!è bem isso mesmo Mara!
Beijinho de parabéns pela lucidez!!!!( OOps, a lucidez é racionalidade ..rs)

Gean disse...

Voltei... fiquei pensando: Como pode uma enorme quantidade de 'bolhas de irracionalidades'(no caso ,pessoas indivíduos)criar uma estrutura racional.. no caso, a sociedade!!!?? Nossa , acho saí do assunto!

mauriciodndm disse...

Mas dá um medo do cão quando um especialista diz o que você disse. Se vocês não sabem, imagine o resto de nós?

Mila disse...

Concordo com o Maurício (rs).

Ah, Mara, eu sou tão cartesiana para algumas coisas.
Agora, para afeição e carinho gratuitos, eu sou igual a você: não sei e nem quero saber, só gosto de sentir.

Beijo!

Fernando Bassat disse...

Puta texto! Você devia ser humanista ao invés de psicanalista! risos