sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Alguma indignação e campanha

É desolador constatar que cada vez mais a corrupção toma conta desse país, averiguar que a impunidade não tem fim, que nosso presidente sempre fica em cima do muro e que nossa perspectiva para o futuro não é melhor.
Nos últimos anos a maioria dos brasileiros têm que se contentar em votar "no menos pior" e hoje não há nenhum nome que nos dê esperança. Já digo de antemão que não voto em hipótese nenhuma em Dilma, nem em José Serra ou qualquer partidário do PSDB. Cadê o Gilberto Kassab nesses dias de enchentes avassaladoras na cidade de São Paulo?
Mas o importante é que o Brasil será a sede da Copa do Mundo e o Rio de Janeiro das Olimpíadas. E tá tudo certo.
Quando o assunto é política o texto é curto porque não aprecio tragédias desse porte. Tragédia só no contexto artístico.
Obs: Quem estiver na cidade de São Paulo nessa sexta-feira, colabore com a campanha da apresentadora, Adriane Galisteu, na luta contra a AIDS e contra o preconceito adquirindo uma camiseta da campanha.
Vários carrinhos da Nestlé estarão espalhados pela cidade, na frente de todos os shoppings e parque Ibirapuera - para quem não faz questão de encontrar a apresentadora. Quem quiser comprar a camiseta e trocar umas palavrinhas com ela, é só aparecer na Oscar Freire em frente da loja da Iódice entre às 10:00 às 22:00h.
Em um mundo tão consumista, onde se vende até mãe, filho e etc, não custa muita coisa gastar seu dinheiro em algo que possa, futuramente, ajudar alguém.
Que nos mobilizemos sempre em coisas que valham a pena! Convite feito.

domingo, 29 de novembro de 2009

Soon...

Eu estou sem internet temporariamente, mas já já volto...
Beijos para quem é de beijo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Kate Moss e o inferno dos outros


Quando abri a página principal da UOL, estampava (e embelezava) uma das notícias, a foto da modelo britânica Kate Moss, com o título: "Polêmica: não há 'nada melhor do que se sentir magra', diz a modelo Kate Moss".
Pensei: mais uma besteira envolvendo a privacidade de uma celebridade. Aí é que está, será mesmo besteira? Porque depois dessa declaração para uma publicação de moda, ela foi acusada de promover a anorexia entre os jovens. (Mais uma vez os holofotes estão focando a modelo pelo seu estilo de vida nada regrado).

A reportagem da UOL destaca: "Estas declarações indignaram os membros da campanha contra o culto à magreza no Reino Unido, que qualificaram de 'chocante' e 'irresponsável' a atitude da modelo britânica, afirma hoje o jornal sensacionalista 'The Sun'." A reportagem ainda destaca: "Segundo Deanne Jade, do Centro Nacional para Transtornos Alimentares (NCFED, em inglês) do Reino Unido, o fato de Moss ser a imagem da marca de roupas Topshop "a transformou em um ícone para milhões de mulheres e jovens", e por isso a importância de suas palavras."

Começo pelo óbvio, a etimologia da palavra "Ícone" que tanta gente usa de maneira inadequada e errada (eu mesma já usei). Definição pelo dicionário Michaelis: í.co.ne
sm (gr eikón, ónos) 1 Quadro, estátua ou qualquer imagem que, na Igreja Ortodoxa, representa Cristo, a Virgem, ou um santo. 2 Na Rússia, Romênia, Sérvia e Grécia, designava uma pintura executada sobre madeira representando uma imagem religiosa. Í. de grupo, Inform: numa GUI, ícone representando uma janela que contém uma coleção de ícones de arquivos ou programas. Í. de programa, Inform: numa GUI, ícone que representa um arquivo de programa executável.

Muito bem, se Moss não pretende uma indicação à canonização pela Igreja Católica e presumindo que ela não é um programa de computador, Kate Moss NÃO é ícone de nada. Podemos alterar a palavra e dizer que ela é representativa no mundo da moda, afinal é a modelo mais conhecida do mundo. E afinal o que é o mundo da moda? Pessoas obesas? Calça fashion tamanho 46? "Pessoas comuns" estampando capas de revista?
O mundo da moda é representativo e alude à algo: ao ideal. Logo, o ideal é o que costumamos ver nas passarelas ou em publicações de moda: mulheres magérrimas e belas (não leiam com isso, que elas só são belas porque são magras).

Com tudo isso só quero chegar que Kate Moss pode afirmar o que ela quiser que não vai desencadear sozinha um culto à magreza nem o incentivo à anorexia, porque ela é o "ideal", assim como o nosso namorado dos sonhos, o emprego que não é nosso, a vida de novela dos outros. Por isso, casamentos acabam, pessoas são demitidas e as pessoas são infelizes - com anorexia ou não - porque o ideal nunca vai ser o real e o ideal é nosso, mas é fácil atribuir aos outros o nosso inferno. Já dizia Sartre...



domingo, 15 de novembro de 2009

Cansada dos pseudo-geniais


Não entendo e acho que não conseguirei entender nunca quem diz que Carlos Drummond de Andrade é um grande poeta. Acho um chato. E dei chances à ele, retornei a ler sua "Antologia Poética", um livro que reune quase 200 poesias do poeta mineiro. Se desses 200 poemas, 10 me tocaram, foi muito.
Me pergunto se as pessoas acham o cara bom mesmo ou se porque ouvem as outras dizerem que ele é bom, complementam sem saber quase nada do que ele escreveu. Fico inclinada a achar que é a segunda opção.

Ganhei um livro publicado pelo SESC sobre os melhores filmes de 2008. Um dos filmes nacionais mencionados era "Via Láctea". Acabei alugando, porque sempre parava diante dele mas por algum motivo não locava. Devia ter mantido na estante da locadora. Do filme, sem nexo, sem sentimento, sem roteiro, sem pé nem cabeça, só sobra a beleza e o talento de Alice Braga. Se for assim, confiram a bonitinha em outros filmes muito mais interessantes.
O mesmo deve acontecer com o filme dirigido por Selton Mello, "Feliz Natal": que fique nas prateleiras e não dentro dos aparelhos de DVD.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Caso Uniban

Há uma contradição sobre um assunto em mim neste momento, se por um lado eu não aguento mais que a mídia fale da estudante que, ora foi expulsa, ora foi readmitida na Uniban, por outro, acredito ser justa a polêmica.
Não vou divagar sobre o assunto, apenas deixar algumas observações que para mim são óbvias.

Reelembro um cenário, e esse cenário foi filmado em 1989. O filme chama-se "Acusados", o primeiro filme de destaque da estupenda atriz, Jodie Foster. Eis o cenário: Uma moça vai desacompanhada à um bar, começa a beber, começa a dançar, sua vestimenta é constituída por um vestido curto, e ela provoca alguns rapazes do bar, dança com eles, bebe com eles, conversa com eles, se insinua pra eles. Eles por sua vez, a estupram.
Está instaurado o direito Constitucional de ir e vir, e de liberdade de expressão e ação, mas durante o filme, a garota passa de vítima à algoz, os advogados dos rapazes que a estupraram defendem que, pela maneira de se comportar, ela "pediu" o estupro.

Parece brincadeira, mas como as coisas caminham, não é.
As mulheres lutaram tanto para assumir o controle de suas vidas, antes mesmo do movimento feminista, e alcançaram muitas conquistas, mas o homem ainda continua enxergando as mulheres como símbolos sexuais, corpos a serem descobertos, ou mulheres, que desesperadamente procuram por um homem para se sentirem completas.

Será que ir à um bar sozinha e se insinuar para alguns homens com um vestido curto, ou, frequentar uma faculdade, se insinuando para alguns estudantes com um vestido curto, dá ao homem o direito de ser a vítima e a mulher a algoz?
Ouvi alguns representantes da Universidade dizendo que a vestimenta da estudante era inapropriada para um meio acadêmico. Qual seria, fico me perguntando, a roupa apropriada.

E em todas as colocações, em todas as suposições e versões sobre o acontecimento, só há uma resposta: Ninguém em lugar nenhum tem o direito de acuar, humilhar, desrespeitar, estuprar outro ser humano. E nada do que me digam ao contrário pode ou fará com que eu mude de idéia.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Surpresas da França ou de qualquer lugar do mundo


No ano da França no Brasil, muitos eventos têm ocorrido, e digo com honestidade que não frequentei muitos além de assistir uma banda de jazz e soul no Parque Ibirapuera e ontem no SESC, na mostra de cinema contemporâneo francês.

Com filmes obscuros de diretores desconhecidos - pelo menos do grande público, fui conferir "Assassinas", (Meutrières), de 2005, drama do diretor Patrice Grandperret. Já retirei convites para sexta-feira próxima para o filme "Até Já", (A Tout de Suite) de Benoit Jacquot, do ano de 2004.

Algumas coisas me chamaram atenção. Primeiramente o filme em si: de altíssima qualidade, com roteiro e interpretações grandiosas - levando em conta a pouca grana para a realização do projeto - de um drama com pitadas de humor (que não deixam de ser negro).
Eis a sinopse: Nina e Lizzy, são duas jovens normais e um pouco frágeis que se encontram em um hospital psiquiátrico. Entre elas, uma identificação imediata: juntas elas são fortes, eufóricas. Sem muita sorte, nem muito dinheiro, elas têm apenas seus sonhos, e sua amizade.
Assombroso, sombrio e triste, o filme narra as escolhas feitas por aquelas pessoas, que já citei aqui, que vivem à margem da sociedade. Escolhas não muito acertadas, que em sua maioria, acabam em tragédia, mas as únicas opções num mundo hostil.

Outras coisas que despertaram minha curiosidade: a mostra de cinema é gratuita, o auditório do SESC possui 126 lugares, e se haviam 30 pessoas no lugar era muito. Algumas conclusões são fáceis de chegar: o cinema francês, assim como o europeu em geral, é mais lento, têm roteiros mais pausados, mais focados nas expressões de seus atores e nas locações escolhidas. E muitas vezes os diálogos não são longos. Para as pessoas acostumadas com o frenesi causado pelos filmes norte-americanos de ação, os franceses são quase insuportáveis. Diria que é quase como a vida contemporânea que levamos, uma agitação frenética, uma corrida contra o tempo, pressão sofrida para a obtenção de resultados, diálogos para esconder o silêncio perturbador. Nossa vida não têm pausa, não tem companhia silenciosa.

Me recordo agora de conversar com meu primo sobre animações infanto-juvenis. Ele gostou de quase tudo que assistiu. E eles são quase irresistíveis mesmo: "Vida de Inseto", "Procurando Nemo", "A Era do Gelo", e outros tantos, mas ele se negou à assistir a animação francesa - uma das melhores na minha opinião - "As Bicicletas de Belleville". Por que? Neste caso, diria que basicamente por preconceito.

E a última observação: conheço pessoas que estão sempre reclamando da falta de vida cultural, e concordo que há épocas do ano em que ela é realmente fraca. Mas ontem, hoje e sábado a mostra é gratuita, o SESC é popular, logo não vai quem não quer. Já imagino as filas lotadas do Cinemark, e vi os bares amontoados de gente enquanto ia ao cinema.

Conclusão: Algumas pessoas já me indicaram muitos filmes ditos "clássicos", e eu não gostei. Mas não fiz ressalvas porque eles eram franceses, italianos ou chineses. Dei e sempre dou uma segunda chance e com isso já tive inúmeras surpresas positivas, encantadoras, arrebatadoras...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nossos mortos e nosso morrer

Assim como a maioria dos feriados, esse, dia de finados, pra mim é de um simbolismo meio (pra não dizer inteiro) bobo.
Hoje a maioria das pessoas estavam comomorando o fato de não terem que ir trabalhar, seja na cidade ou na praia entupida com um sol de 40 graus na cabeça. Alguns outros, poucos, visitaram cemitérios para se "lembrarem" daqueles que morreram.
Na minha modesta opinião, não precisamos de feriado decretado para lembrarmos daqueles que não estão mais com a gente. Se essas pessoas eram realmente importantes e significavam algo de muito concreto em nossas vidas, é normal que se pense nelas durante muitos dias e em muitos momentos do ano. Alguns dos nossos mortos, viram fantasmas que nos perseguem durante toda a vida - para o bem ou para o mal.

Na semana que passou estava assistindo algum programa tosco que a programação aberta nos oferece, e lembro de ter ouvido que as pessoas não pensam na morte, que elas estão tão consumistas, tão individualistas, e etc, que não conseguem parar para pensar em sua própria finitude. Pois bem, essa é uma das grandes asneiras que eu já ouvi na vida. Não precisa ser psicanalista pra conceber que as pessoas pensam na morte todo o tempo. Se não pensam diretamente, sonham ou se deparam com ela a maioria do tempo, e uma das razões para que uma pessoa se torne uma consumista de carteirinha, é exatamente saber que vai morrer. "Se vou morrer, vou aproveitar o que o dinheiro pode me proporcionar enquanto estou viva". Quando eu ainda clinicava, lembro de uma senhora que eu atendi que disse que estava planejando uma viagem para a Europa, não pelo simples fato de conhecer a Europa, mas pelo medo de morrer sem ter conhecido um continente que "todo mundo fala bem".
Então a gente se desdobra em 10 pessoas ao mesmo tempo: fazemos cursos, de pintura, cerâmica, artesanato, aulas de ginástica, ioga, musculação, tentamos aprender outros idiomas, vamos ao shopping tostar o salário que acabamos de ganhar, combinamos mil eventos, café com a fulana, jantar com a cicrana, passeio com o joão mané. Tudo, absolutamente tudo para que possamos esquecer que em nossa vida vai ter um letreiro: "The End"

Então, sim, acho uma baboseira um feriado de finados. Acho que deveríamos ter um feriado para celebrar a vida, essa meio em trancos e barrancos, mas que é nossa. Porque deixar de pensar na finitude, ah, isso não dá não!

Obs: falando em mortos, Fabiana, amanhã faz 10 anos que você saiu de casa e nunca mais voltou. Eu penso em você todos os dias desses 10 anos. Te amo, você faz falta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Vida em Família

Estou aqui com a primeira temporada da série norte-americana, "Brothers and Sisters". Assisti pouco dela e mesmo assim já digo que gosto, mesmo com os clichês característicos: pai morto, mãe alienada, filho homossexual, filho perdido, e filhas neuróticas. (Ponto a favor: As talentosíssimas, Calista Flockhart, Sally Field e Rachel Griffiths).
Gosto, porque quando assisto me vejo, encontro detalhes sórdidos, vívidos e esperançosos em mim e nas pessoas da minha família, porque se é clichê, é porque basicamente, assustadoramente, eles acontecem de monte (seria essa frase um clichê?).

Aprendi quando pequena a me infiltrar na biblioteca do meu pai, a folhear as páginas e conquistar uma estante só pra mim - seria por isso a minha adoração por livros? Mostrava a meu pai algumas coisas que ele não conhecia, e na minha imaginação - não sei se foi algo real, concreto - ele gostava. Uma das mais vivas é a de assistir os filmes do Quentin Tarantino com ele, e quando comprei os Dvds, o peguei muitas vezes assistindo e dando risada com as cenas bem pitorescas do "grande" Quentin. Logo depois, ele curtiu "Cães de Aluguel".
Ele ouvia minhas músicas e pedia pra botar pra tocar. Acho que o silêncio o incomodava bastante. E como uma coisa leva a outra, eu ouvia o que tocava no rádio do carro dele. Lembro da pequena viagem que fizemos, ele me levando para o aeroporto, de madrugada, e a gente conversando sobre a vida dele, das dificuldades da adolescência, da pouca grana, da muita vontade - e tocava de fundo um antigo disco do Roberto Carlos, que ficou marcado em mim, porque a conversa foi boa e talvez, porque o disco seja bom.

Minha prima quando me viu ouvindo umas músicas tipo New Kids on The Block (eu tinha meus 12 anos), me levou para seu quarto e mostrou seus discos. Lembro de alguns deles: Sex Pistols, The Smiths, Rage Against The Machine, Black Sabbath e um disco duplo do Caetano - que hoje é um dos meus preferidos. E não sei se por acaso, esses discos e bandas entraram em minha vida e nunca mais saíram. Mostrei o disco "Mais", de Marisa Monte à ela, e ela gostou e o escutava. A última vez que a vi conversávamos sobre o disco ao vivo da banda Portishead. Ela amava, eu amo.

Não tenho nada de muito em comum com minha mãe e com minha irmã, mas de alguma maneira, de forma boa, penso eu, elas me influenciam todo o tempo, com conversas, atitudes, comportamentos. Uma vez, minha irmã disse que quando ouvia "Esquadros", da Adriana Calcanhotto, como mágica, pensava em mim, na parte em que a canção diz: "Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome, cores de Almodovar, cores de Frida Kahlo, cores...". Não sei bem o motivo, mas me emocionei.

Primas, primos, tios, tias, uma variedade de gente e de gostos e de posturas que interferem na sua vida e faz com que você aprenda, mesmo muitas vezes, não de maneira agradável a se posicionar de outra maneira.

Eu tenho um sobrinho, pequenino, e sempre lhe dou de presentes, livros - para ele já ir montando a sua "estante", discos e filminhos, porque é o meu único legado. Não sou corajosa, não sou talentosa de maneira prática, sou prepotente e orgulhosa, já muito cansada, e isso, eu queria que ele não notasse, não percebesse. Não sei se é possível, mas tento arduamente, todos os dias que ele veja apenas as cores de Almodovar em mim.

Família é clichê. Na minha há os neuróticos, os homossexuais, os alienados e os problemáticos. Na família de todos...
Talvez por isso, valha a pena conferir, "Brothers and Sisters". E como clichê, chorar em muitas das cenas.

sábado, 24 de outubro de 2009

All you need is love





Comemorei meus 30 anos junto das pessoas que eu amo. E isso já é o suficiente.
Os amigos de longe: de Campinas, do Rio, de Sampa, de Manaus, de Vitória, e daqueles que já não estão mais em nenhum lugar fazem sempre uma falta dolorida. Mas comemorar é saber comemorar internamente a presença daqueles que ficaram ausentes fisicamente.
Amo vocês.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"Não é televisão, é cinema!"


A frase acima é do autor do livro "O Clube do Filme", David Gilmour, pai de Jesse, um garoto de 15 anos que fracassa na maioria das disciplinas escolares e se mostra entediado, cansado e chateado por ter que frequentar a escola. Gilmour então propõe o seguinte ao menino: não precisa ir à escola, não precisa trabalhar e nem pagar nenhuma conta dentro de casa, Jesse só precisa assistir 3 filmes por semana escolhidos pelo pai e acompanhado do pai. E sobre os olhares reeprensivos dos vizinhos que enxergavam dia e noite o pai e filho sentados numa poltrona assistindo televisão, David tinha vontade de gritar: Não é televisão, é cinema. E que fique claríssimo a diferença.

O filósofo nada ortodoxo, Paul Feyerabend, em seu livro "Contra o método" discursa a favor de práticas alternativas no ensino das crianças e adolescentes. Por que eles têm que aprender apenas as ditas "ciências sérias"? Por que não ter aula de mágica?
E essa é a pergunta que eu faço: Por que não ter aula de cinema, ou de música? Ao meu ver, e pode ser bem parcial, já que aprendi com a arte cinematográfica muito mais que as aulas de física, química e matemática juntas, o cinema pode e é um dos recursos mais agradáveis e eficazes de educação. Não essa educação tradicionalista que finge que o mundo não está mudando, mas a educação de conscientizar o jovem de que ele pode pensar por ele próprio, sem ser forçado a se confrontar com teorias, que provavelmente jamais terá de utilizar o resto da vida.

Na história de sua vida, David Gilmour não optou pelo mais fácil. Não é fácil não saber se o que ele premeditou, se o seu legado de crítico de cinema e conhecedor da sétima arte funcionará com o filho, se através do cinema, ele vai adquirir vontade de viver a sua própria vida. Não deve ter sido fácil esperar 3 anos para ver seu filho indo pra vida, mas deve ter sido inesquecível se sentar ao lado do filho e não só assistir aos filmes, mas ter com ele, conversas francas sobre a vida dos dois. O cinema tem esse poder: o de aproximar a nossa vida, a nossa consciência daquilo que a gente vê.

Quantos pais matriculam seus filhos nas melhores escolas, cursos de idiomas, aulas de ginástica, tênis, violão e o raio que o parta, mas não têm o menor conhecimento do que se passa na cabeça, no cotidiano e na vida desses filhos?

David e Jesse Gilmour aproveitaram (e não perderam) 3 anos de suas vidas para se conhecerem, para se respeitarem e consequentemente, para assistirem alguns filmes.

Obs1: E não é que David Gilmour além de ter sugerido os "ditos" clássicos, também assistiu com o jovem Jesse, porcarias, como ele mesmo escreve, como "Showgirls", "Robocop" e "Rocky 3"? Não se aprende apenas com o que é bom. Precisa-se de parâmetros para SABER o que é bom.
Obs 2: Fiquei surpresa e feliz que o livro esteja entre os mais vendidos. Espero que as pessoas saibam aplicar alguma coisa dele em relação aos que querem bem.
Obs3: Que vontade de reassistir "Amores Expressos", de 1994, do diretor Wong Kar-Wai. Depois do término do livro, fui correndo para a locadora, mas não tinha sequer uma cópia. Será que precisa-se comprar esse tipo de filme (não que isso seja desagradável, muito pelo contrário) para ter acesso? E a grande maioria? Fica sem assistir mesmo...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Maitê Proença e Portugal

Pelo programa de televisão "Saia Justa", a atriz brasileira Maitê Proença visitou Portugal e conseguiu ofender todos os portugueses.

Não acredito que ela tenha ofendido apenas os lusitanos mas aos brasileiros que acham indigno uma pessoa visitar um determinado local e tecer comentários sem conhecimento de causa (Maitê chama o Tejo de mar) e piadas sem graça, insinuando que os portugueses são burros e falando que os considera um povo estranho. Se não bastasse a falta de conhecimento geográfico, conhecimento sobre a história de Portugal, a atriz mostra também a falta de educação e bons modos ao cuspir em uma fonte que é um monumento histórico do país.
No Youtube, o vídeo se proliferou e dele derivou outros tantos vídeos, como o de canais de televisão de Portugal sobre o comportamento da "atriz-apresentadora-escritora-dramaturga"???

Mas o que mais me impressiona não é exatamente o que Maitê Proença fez. Dela escrevi há pouco tempo aqui, dizendo sobre a sua pouca gentileza. O que me causou alguma revolta é averiguar que a maioria dos brasileiros que deixam seus comentários sobre os vídeos no site do Youtube, se posicionam a favor dela e contra os portugueses, que com razão, se revoltaram. Logo, a conclusão que se chega é que Maitê Proença não é algo isolado do que significa o povo brasileiro. Teve as mesmas atitudes que a maioria de nós teríamos. Degradamos uma nação, que não é a nossa, e rimos dela e se não bastasse achamos que temos razão. Depois é o povo lusitano, o povo estranho?

Devíamos era nos envergonhar e pedir desculpas por ela, e entender que se fosse o contrário, alguém de outro país visitasse o nosso e achasse graça em cuspir no Cristo Redentor, faríamos exatamente o que os portugueses fizeram: se indignaram.

Outro vídeo no Youtube é o da atriz pedindo desculpas à nação portuguesa e dizendo que brasileiro é assim: leva tudo na brincadeira e que a gente brinca com o que a gente gosta e aprecia. Alguém entende isso? Porque eu não entendi.

É por esse e tantos outros espetáculos promovidos por tanta gente que nasceu aqui - e que achamos que são fatos isolados - mas que representa todo um comportamento de uma nação é que faz com que eu goste cada vez menos e tenha pouquíssimo orgulho de ser brasileira.

Convido todos à irmos para Salvador e cuspir dentro da Igreja do Bonfim ou à Aparecida e fazer o mesmo com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Vambora, brincar com o que a gente aprecia!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Samba e amor

E a gente na cozinha conversando e no Dvd rolando o show do Casuarina, sambas bom demais e o meu jeito de dizer que ainda sou completamente apaixonada por você:

Eu quero
Me esconder debaixo
Dessa sua saia
Prá fugir do mundo
Pretendo
Também me embrenhar
No emaranhado
Desses seus cabelos
Preciso transfundir
Seu sangue
Pro meu coração
Que é tão vagabundo...

Me deixa
Te trazer num dengo
Prá num cafuné
Fazer os meus apelos...

Eu quero
Ser exorcizado
Pela água benta
Desse olhar infindo
Que bom
É ser fotografado
Mas pelas retinas
Desses olhos lindos
Me deixe hipnotizado
Prá acabar de vez
Com essa disritmia...

(Martinho da Vila)

domingo, 11 de outubro de 2009

Lista a respeito de gente e não sobre livros

Quem já não se rendeu à listas?
Essa é a minha, o Top 10 dos livros que mais marcaram, aqueles que ficam como tatuagem:

1. A Descoberta do Mundo - Clarice Lispector.
2. O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa.
3. As Meninas - Lygia Fagundes Telles.
4. O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano.
5. A Alma Encantadora das Ruas - João do Rio.
6. O Ovo Apunhalado - Caio Fernando Abreu.
7. O Jogo da Amarelinha - Julio Cortázar.
8. Precisamos Falar Sobre o Kevin - Leonel Shriver.
9. Os Miseráveis - Victor Hugo.
10. É Claro que Você Sabe do que eu Estou Falando - Miranda July.

E eles falam "basicamente" sobre nós.

"Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara..."E. Galeano.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Back to Amy


O post abaixo é menos informativo e mais coerente com o post anterior quando escrevi sobre Cazuza e outras personalidades "errantes".

O jornal britânico "The Telegraph" elegeu "Rehab", música do disco Back to Black, de 2006, da "marginal" Amy Winehouse como a música mais influente da década, em uma escolha de 100 canções.
Segundo o jornal britânico, a música de Amy é a que melhor define a cultura músical dos anos 2000.
Segundo a publicação, são "as músicas universais que entraram para a cultura popular e viraram trilha sonora em nossas vidas".
Então, parece que os Jonas Brothers e todos os bons moços discípulos dos New Kids on The Block ficaram de fora...
O que seria da nossa vida cultural sem os marginais?
Fora isso, salve, salve Amy!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A tal psicóloga e Cazuza


O e-mail abaixo que recebi de um tio, coloco na íntegra, para falar a respeito dele depois.

E-MAIL:

Psicóloga x Cazuza!

Esta mensagem precisa ser retransmitida para todas as FAMÍLIAS
Uma psicóloga que escreveu, corajosamente algumas verdades.
Uma psicóloga que assistiu o filme Cazuza escreveu o seguinte texto:
'Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa
estarrecedora . As pessoas estão cultivando ídolos errados..
Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza?
Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um
marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível.
Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à
margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir
(ao menos eu) com conceitos de certo e errado.
No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que
nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos.
A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai
preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr
solta.
São esses pais que devemos ter como exemplo?
Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma
grande gravadora.
Existem vários talentos que não são revelados por falta
de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.
Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro,
admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso.
Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença
entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e
outro não.
Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz,
principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei
conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas,
participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas,
já que foi isso que o filme mostrou.
Por que não são feitos filmes de pessoas realmente
importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão
transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria?
Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever
nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor.
Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi
consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza
teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO
quando necessário?
Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor .
Não deixem seus filhos à revelia para que não
precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é
educar.. Não se preocupem em ser 'amigo' de seus filhos.
Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi a pessoa
que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois
amigo não diz SIM sempre.'

Karla Christine
Psicóloga Clínica
Leu ?
Concorda com a psicóloga?
Então faça sua parte divulgue.

Fiquei sabendo, depois de dar uma procurada na internet que esse e-mail também foi repassado como se fosse de uma mãe e um pai transtornados por seu filho ter assistido o filme sobre Cazuza. Não sei se deveria perder o meu tempo divagando sobre esse assunto, mas como já disse Clarice Lispector (a quem Cazuza admirava): "O que obviamente não presta sempre me interessou muito".
Se a pessoa que escreveu esse e-mail realmente for psicóloga, seu Conselho Federal de Psicologia deveria ser cassado. Como psicóloga sei qual é o código de ética da categoria. Preconceito na nossa profissão é "crime". E o que ela escreve é um monte de conceitos não fundamentados, e se fundamentados, apenas com as suas crenças pessoais e não como categoria, logo, ela deveria ter escrito como uma cidadã e não como psicóloga.
Na Psicologia não há o certo e nem o errado, há a subjetividade humana e com ela derivações sem fim. O psicólogo assim como qualquer cidadão de bem deve ensinar, educar e fazer com que as pessoas pensem por si mesmas, que elas próprias descubram o que elas procuram.
A pessoa se refere à Cazuza como uma personalidade desregrada. Será que com isso ela quis dizer também que era desregrada porque Cazuza era homossexual, usava drogas e era portador do vírus da AIDS? Acho que ela não quis pegar mais pesado do que pegou, então essa parte ficou só nas entrelinhas...(aposto que os pastores das igrejas evangélicas adoraram seu e-mail - só faltou dizer que ele morreu porque merecia). Pois bem, cito alguns nomes - só alguns - de personalidades desregradas: Janis Joplin, David Bowie, Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Mick Jagger, Salvador Dalì, Jim Morrisson, Marlon Brando, James Dean, Paul Verlaine, Amy Winehouse.
Se eu tivesse filhos, diria a eles para enaltecer e cultuar essas pessoas, porque à margem da sociedade, elas fizeram a sociedade inteira pensar, amar, dançar, se deslumbrar, e mais do que isso, sonhar. Não há vida mais injusta do que aquela que não há sonho.
Pais deveriam se revoltar com filhos dia e noite na frente de um computador, celebrando ídolos torpes, passageiros, em resumo, lixos, como uma Xuxa que tem 50 anos, mas se comporta como uma garota de 15, Sandys e Juniors que em nada acrescentam, funks das bundinhas, tudo sem o menor conteúdo.
E como cansei de gastar meu verbo, cito agora a jornalista e escritora Martha Medeiros, sobre o mesmo e-mail:

"Não há razão pra temer os desiguais. O autor anônimo do texto diz, a certa altura, que ficou horrorizado porque sua filha assistiu o filme e foi preciso conversar muito com ela para explicar que usar drogas, beber até cair e participar de bacanais não são coisas certas. Concordo que não é um estilo de vida dos mais saudáveis, porém entre o certo e o errado há muitas outras coisas, com dizia o próprio Cazuza, e não podemos fingir que o mundo é composto apenas de super-heróis imunes a fraquezas, a curiosidades e a ímpetos que nem sempre estão dentro dos padrões.
O que importa na vida de um artista é sua arte, é o que ele deixa de legado. Biografias, filmadas ou escritas, servem apenas para entender a época em que ele viveu, quais eram seus conflitos, qual a fonte de sua inquietação. Ao se contar uma história de vida, seja ela qual for, humaniza-se o personagem. Será que foi essa explicação que a menina adolescente recebeu depois de assistir o filme, ou será que ela recebeu uma bela lição de maquineísmo? Meu caro anônimo, há muitas formas de se ministrar uma educação errônea. Citar Cazuza como ídolo inadequado é de uma miopia desoladora. O que dizer de vários ídolos pré-fabricados que nada acrescentam artisticamente, que não emocionam nem instigam, apenas vendem sandalinhas? Deixemos os artistas, os verdadeiros, os realmente inspirados, experimentem a desobediência, testem seus próprios limites, busquem a vida nos buracos sujos onde ela se esconde. Todos aqueles que pintam, dançam, cantam, escrevem, e atuam com as veias saltadas, com sangue quente, com a alma aos gritos, estão na verdade ajudando a revelar a nós mesmos, cidadãos acima de qualquer suspeita".

E pra terminar, como dizia o poeta: "Todo amor que houver nessa vida pra vocês".