segunda-feira, 11 de maio de 2009

Eastwood, Contardo e a Intolerância


Difícil imaginar o cinema norte-americano hoje sem a figura marcante de Clint Eastwood. Em meados de fevereiro postei nesse blog minha visão da parceria entre ele e Angelina Jolie em "A Troca" e retorno a falar dele em esse seu último filme: Gran Torino.

Gran Torino é filmado com uma simplicidade enxuta que traduz perfeitamente a brutalidade da intolerância. Eastwood faz o papel de Walt Kowalski, um veterano de guerra que depois da morte da mulher, vive metodicamente seus dias, e seus dias consistem basicamente em manter a sua casa organizada, cortar o cabelo, beber a sua cerveja e lavar e cuidar de seu maior bem: um Gran Torino 1972. O carro é coadjuvante e metafórico, ele é o único resquício de uma época que não existe mais. Um país prosperando, com uma forte indústria automobilística e sem imigrantes espalhados por todos os cantos.
Como se adaptar ao dias atuais? Ou se vira um eremita, ou aceita-se a multiplicidade ou morre-se ou mata-se pela intolerância pêlos que são diferentes.

Estou lendo o livro do psicanalista Contardo Calligaris, "Quinta-Coluna", em que em uma de suas crônicas ele fala do Engenho de Dentro, um bairro antigo na zona norte do Rio de Janeiro, onde um Honda Fit foi abandonado com uma cabeça sobre o capô e os corpos de dois jovens negros retalhados a machadadas, no interior do veículo. A reação dos moradores foi tão chocante como as brutais mutilações. Vários moradores buscaram seus celulares para fotografar os corpos, e os mais jovens riram e fizeram troça dos corpos. Contardo conclui dessa maneira: "Uma vez fechada a porta de sua casa, eles consideravam (e constatavam) que o espaço urbano pertencia a um povo que não tinha nada a ver com eles, um povo de drogados, bêbados, miseráveis e criminosos. Quem circulava naquele espaço não fazia parte de sua comunidade, são cadáveres do tráfico, destinados a intimidar drogados que não pagam suas dívidas. Nada a ver com a gente. Podemos festejar, pois os mortos são de uma outra tribo, uma tribo inimiga".
O fato é, que acreditamos nisso para que possamos viver melhor, sem culpa pela morte das pessoas que "não são parecidas" com a gente. Só que se a indiferença e a intolerância persistirem, ainda veremos por muito tempo corpos mutilados pelas ruas afora, meninos que invadem escolas com metralhadoras matando professores e alunos e massacres em geral ( e qualquer dia desses, nós podemos ser os "diferentes").

Clint mostra o carro, ele ainda está lá, mas ele significa algo que já não existe mais. E a pergunta é: O que faremos com o carro? O que fazemos diariamente com o simbólico que já não significa mais nada?

6 comentários:

Anônimo disse...

adorei a maneira de voce interpretar o filme (: parabéns

Valentina disse...

Eu amei o filme, sou apaixonada pelo Calligaris e amei seu post.
Beijão e saudades de você lindona.

Nina disse...

essa é uma das grandes questões que me atormentam: o que fazemos diante do simbólico que significa tanto pra gente ou que pelo menos significou?

Fernando Bassat disse...

Ainda não assisti esse filme acredita? Estou doido pra assistir.

victor disse...

O carro continua sendo um símbolo..só que agora , de decadência!

Dani Baroni disse...

Só agora li este texto...
Excelente! Adorei o link com o livro do Contardo.
Parabéns!
Beijos