quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Kate Moss e o inferno dos outros


Quando abri a página principal da UOL, estampava (e embelezava) uma das notícias, a foto da modelo britânica Kate Moss, com o título: "Polêmica: não há 'nada melhor do que se sentir magra', diz a modelo Kate Moss".
Pensei: mais uma besteira envolvendo a privacidade de uma celebridade. Aí é que está, será mesmo besteira? Porque depois dessa declaração para uma publicação de moda, ela foi acusada de promover a anorexia entre os jovens. (Mais uma vez os holofotes estão focando a modelo pelo seu estilo de vida nada regrado).

A reportagem da UOL destaca: "Estas declarações indignaram os membros da campanha contra o culto à magreza no Reino Unido, que qualificaram de 'chocante' e 'irresponsável' a atitude da modelo britânica, afirma hoje o jornal sensacionalista 'The Sun'." A reportagem ainda destaca: "Segundo Deanne Jade, do Centro Nacional para Transtornos Alimentares (NCFED, em inglês) do Reino Unido, o fato de Moss ser a imagem da marca de roupas Topshop "a transformou em um ícone para milhões de mulheres e jovens", e por isso a importância de suas palavras."

Começo pelo óbvio, a etimologia da palavra "Ícone" que tanta gente usa de maneira inadequada e errada (eu mesma já usei). Definição pelo dicionário Michaelis: í.co.ne
sm (gr eikón, ónos) 1 Quadro, estátua ou qualquer imagem que, na Igreja Ortodoxa, representa Cristo, a Virgem, ou um santo. 2 Na Rússia, Romênia, Sérvia e Grécia, designava uma pintura executada sobre madeira representando uma imagem religiosa. Í. de grupo, Inform: numa GUI, ícone representando uma janela que contém uma coleção de ícones de arquivos ou programas. Í. de programa, Inform: numa GUI, ícone que representa um arquivo de programa executável.

Muito bem, se Moss não pretende uma indicação à canonização pela Igreja Católica e presumindo que ela não é um programa de computador, Kate Moss NÃO é ícone de nada. Podemos alterar a palavra e dizer que ela é representativa no mundo da moda, afinal é a modelo mais conhecida do mundo. E afinal o que é o mundo da moda? Pessoas obesas? Calça fashion tamanho 46? "Pessoas comuns" estampando capas de revista?
O mundo da moda é representativo e alude à algo: ao ideal. Logo, o ideal é o que costumamos ver nas passarelas ou em publicações de moda: mulheres magérrimas e belas (não leiam com isso, que elas só são belas porque são magras).

Com tudo isso só quero chegar que Kate Moss pode afirmar o que ela quiser que não vai desencadear sozinha um culto à magreza nem o incentivo à anorexia, porque ela é o "ideal", assim como o nosso namorado dos sonhos, o emprego que não é nosso, a vida de novela dos outros. Por isso, casamentos acabam, pessoas são demitidas e as pessoas são infelizes - com anorexia ou não - porque o ideal nunca vai ser o real e o ideal é nosso, mas é fácil atribuir aos outros o nosso inferno. Já dizia Sartre...



5 comentários:

Daniel Saes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel Saes disse...

Má, o idioma é mutante e se adapta ao meio, é um "meme", a ascepção de icone deixou de ser religiosa, assim como a religião também deixou de ser o que já foi um dia! (Um viva aos ateus!) O melhor exemplo disso é o caralho, que um dia significou aquela cestinha no alto dos mastros das caravelas, onde por ser o pior e mais instavel lugar de um navio, "ir para o caralho" era o pior dos castigos, curioso o que se tornou um caralho hodiernamente!

O "ideal" moderno de magreza é definido por estilistas gay´s cuja percepção de beleza esta justamente na masculinização das formas femininas, no andrógeno, deriva da inveja destrutiva pelo belo feminino com suas curvas e doçura.

beijinhosss
Dani

Helena disse...

Daniel, discordo de você. Se determinada palavra de adapta ao nosso vocabulário, ela é inserida no dicionário com seu outro significado, assim como aconteceu com a palavra na área de informática.
Ma, realmente é até cansativo a gente ler que ultimamente é tudo culpa das celebridades, mãe e pai não têm mais culpa de nada...
Concordo com a Kate Moss, nada melhor do que se sentir magra, nem por isso enfio meu dedo na garganta...
Beijos.

Leandro Negreiros disse...

Daniel, concordo exatamente com vc,no ícone e no ideal. Essa outra acepção da palavra ícone não está em todos os dicionários ainda, até porque muitos não são atualizados na frequência que deveriam ou não o fazem exatamente por temer essa característica mutande do idioma. Além disso, a língua falada não precisa ser necessariamente o espelho da língua escrita. Não é e nunca vai ser.
Muito embora alguns artistas sejam referências para nossa vida, não podemos culpá-los pelas mazelas que nos acomete. Vide o clichê: "não culpe a janela pela paisagem".
Beijos Mara!

G disse...

Não sabia que a palavra Caralho estava associada a algo tão ruim! Quem fez esta associação deve ter sido uma mente religiosa!!! rsrsrsrs
Mas assim, o idioma é como uma nau ao vento(já que estamos no asssunto marítimo) objeto sem porto, heraclitamente(de Heráclito, o homem do eterno devir) vagando pelos contextos afora..(aff Maria) rs.
No fundo vc precisa ser muito macho pra ser vc mesmo e mandar todos os ìcones para os raios que os parta!

Um brinde aos mortais corajosos..TIM-TIM!

Beijo na musa!