quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O Homem e o Sexo

Traçar linhas entre comportamento normal e anormal sempre foi uma das grandes e antigas preocupações do ser humano. Mais difícil ainda tem sido justificar o que é correto no sexo. Com o decorrer dos séculos, o próprio padrão de normalidade nessa área vai se modificando. O que já foi considerado como anormal, desviante, aos poucos passou a ser encarado como normal, e o que é considerado diferente é conhecido como anormal. Alguns comportamentos são chamados de desvios e perversões sexuais com cunho pejorativo de nomenclaturas como tara sexual, aberração sexual, psicopatia sexual, sendo que a prática que leva esses nomes recebe a conotação de mera variação sexual. No início do século XX, as explicações tendiam a recorrer às “predisposições constitucionais”, implicando “degeneração” e “taras”. Até mesmo a masturbação recebia esse tipo de classificação. Há muitas maneiras de se encarar o comportamento sexual diferente, perverso, desviante; anormal por ser fora da reprodução (se não for sexo que permita reprodução é anormal); estatisticamente anormal (quando não é comportamento da maioria); normal cultural (quando num determinado grupo, alguns comportamentos são normais, mas fora dele são indesejáveis).

Mas não terminam aí os critérios para se julgar o que é normal ou anormal no sexo. A etologia, por exemplo, leva em conta que o homem é por princípio um animal e o sexo, uma função biológica, o que permite compará-lo aos outros animais e seus comportamentos sexuais. O que acontece naturalmente entre os animais poderá acontecer com o humano sem ser desviante.

As explicações psicológicas para o comportamento desviante tomaram impulso desde o fim do século XIX, com o desenvolvimento de diferentes correntes psicológicas, quando se passou a observar a personalidade do indivíduo e a motivação original do ato perverso. A sexualidade ideal ditada pela Modernidade seria a da pessoa psicologicamente saudável, o contrário é o comportamento sexual desviante. Mas o que seria uma pessoa psicologicamente saudável? E o que as ciências sociais, principalmente a Psicologia têm a dizer sobre a sexualidade? Seria esse tema mais bem tratado pelos saberes que giram em torno do psicológico? O que há de novo e como se configura o campo dos estudos sociológicos sobre sexualidade?

Na área do saber antropológico, por exemplo, a sexualidade não é um objeto de estudo novo ou estranho à tradição disciplinar, ao contrário, existem etnografias clássicas que descrevem práticas sexuais de sociedades ditas primitivas, desde o início deste século. Investigava-se a dimensão da sexualidade, no esforço de conhecer as diferentes modalidades de organização social peculiares a cada grupamento humano. O olhar conferido a tal objeto, contudo, não o privilegiava como um campo de investigação autônomo, com estatuto próprio. Enquanto objeto de estudo, a sexualidade inseria-se no conjunto das regras que regulavam a reprodução biológica e social de uma dada comunidade.

A dissociação entre sexualidade e reprodução biológica da espécie, a partir do desenvolvimento dos métodos contraceptivos hormonais, nos anos 60, e o advento da epidemia da doença AIDS (sigla em inglês para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida causada pelo vírus HIV), na década de 80, deram novo impulso às investigações sobre os sistemas de práticas e representações sociais ligados à sexualidade, contribuindo para um campo de investigação em si, dotado de certa legitimidade. Tal particularidade só pode ser entendida no contexto da sociedade ocidental do final do século XX, que elegeu as questões ligadas à intimidade, à vida privada e à sexualidade como centro da reflexão sobre a construção da pessoa moderna. Assim, duas faces compõem a personagem do indivíduo moderno: uma delas refere-se à sua constituição como sujeito político, livre, autônomo, portador de direitos de cidadania e à sua fabricação subjetiva, por múltiplos dispositivos disciplinares, que tornam as experiências do gênero e da sexualidade centrais para a constituição das identidades.

Ressaltando que tal concepção de sujeito é originária de uma determinada percepção cultural, temporal e historicamente marcada, que se espraia nas diferentes sociedades de modo também desigual.
O que é próprio de nossa sociedade não é a condenação do sexo por tabus e interditos a permanecerem na escuridão, do que não é falado, do que não é tratado, mas, sim de ter de falar dele sempre, valorizando-o como um segredo. E qual seria esse segredo? E por que o encobrimento de um assunto que a todos interessam? Um comportamento então visto como inerente ao homem, instintivo, biológico e prazeroso. Por que a dificuldade de lidar com o que desperta o prazer? Muitas perguntas relevantes podem ser feitas a partir de contradições históricas, seria legítimo, perguntar por que durante tanto tempo associa-se sexo ao pecado fazendo associações com o que é condenável, e ainda, hoje em dia nos culpamos por ter outrora feito dele um pecado. Seria, então, a sexualidade condenável e estaríamos pecando por exercer essa sexualidade?

Deve-se falar de sexo e falar publicamente, não julgando o que é lícito ou ilícito. Segundo Foucault: “Cumpre falar de sexo como de uma coisa que não se deve simplesmente condenar ou tolerar, mas, gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, administra-se. Sobreleva-se ao poder público; exige procedimentos de gestão, deve ser assumido por discursos analíticos”.

7 comentários:

Prof. Esp. Daniel Freitas Saes disse...

Muito bom o texto, mas vale complementar, que diferentemente da grande maioria dos outros animais, o homo sapiens tem no sexo uma função social, genética e evolutivamente, o corpo feminino assume proporções e adaptações como protuberação de glândulas mamárias e como formação de adipócitos que caracterizam uma estrutura genóide que estimulam a libido do sexo masculino, em detrimento do quase desaparecimento e ainda pouco entendida comunicação neuroquímica (feromônios)acerca do ciclo de fertilidade feminino, podendo ser no processo evolutivo o aparecimento dessas característica fenotípicas até alguma forma de compensação entre esses processos que regem a reprodução no mundo animal. Vale observar que as características sexuais femininas remetem a uma possivel qualidade dos genes, sendo o acumulo de gordura e o tamanho das glândulas mamárias referência direta para a capacidade de gerar e nutrir a prole tanto no período fetal como no pós. Da mesma forma que as característica sexuais masculinas, como tônus muscular e força remetem não apenas na espécie humana como em muitas outras a capacidade do macho de prover o alimento e proteger a fêmea e a prole. Aquém de como o ser humano justifica seus ansêios e objetivos para viver em sociedade, biologicamente entramos em uma ruptura dos paradigmas que nos foi apontado como padrão durante todo o processo evolutivo, a capacidade intectual e habilidades sociais como valência de características que apontam o indíduo como provavel provedor, em ambos os sexos, e os avanços da medicina na ciência da fertilidade, derrubam uma orientação biológica evolutiva.
Portanto, o gêneros perdem suas características e funções sociais que amplamente os diferenciavam no passado, criando uma crise nos valores do indíviduo consequentemente, no que estem buscam, aflorando então outra função do sexo além da reprodutiva, ou seja, a função social, seria esta uma das causas da homosexualidade ? Dificil dizer, afinal como quase tudo no campo social, e psicológico, torna-se uma mera especulação de possibilidades, e não fato científico que possa realmente ser corroborado.

mauriciodndm disse...

Não concordo com o amigo aí de cima. Desde quando vamos ficar dizendo que o que não é constatado no laboratório é mera especulação? Acho um pouco arrogante e sem sentido.

Prof. Esp. Daniel Freitas Saes disse...

A ascepção da palavra laboratório é bem ampla! Mas você pode até acreditar no que se deduz fora de um método científico, escolha uma entre várias opções dogmáticas, coloque seu "livro verdade" embaixo do braço e isso se chama fé! Se sinta então acolhido e aquecido nos braços de uma maioria!

Forte abraço!

Gean G. Silva disse...

Uma pessoa poderia fazer sexo e se satisfazer com uma quantidade enorme de pessoas á sua volta, mas ela vai usar criterios estéticos , de mérito e mais mil detalhes subjetivos pra escolher um par, alguém com quem ela vai se envolver sexualmente...Claro que deve haver um certo padrão de comportamento ,devidamente medido em laboratório, mas tem os casos que , por mais que tentemos compreender,não se enquadra.. daí, só nos resta palpitar e palpitar! rs.

Gean G. Silva disse...

Voltei para comentar sobre a conveniencia ou não de falarmos abertamente sobre nossa vida sexual e sobre sexo, tipo, bancarmos o Jean-Jacques Rousseau em seu 'As Confições'! Penso que isso depende muito da constituição psíquica de cada um!O Rousseau foi um pensador quase único, pois dava o mesmo peso para o sexo que Marx dava para a economia como fator e motor que determina a história humana(Se eles tem razão já é outra estoria!rs)Expor nossa vida emocional, economica e sexual pro mundo todo!? Sei não! Mas eu ,como pessoa extremamente irrelevante ,sempre preocupo-me em responder(com os amigo íntimos converso abertamente, mesmo sem ser questionada..rs) sinceramente sobre qualquer pergunta que alguém dirija para minha insossa pessoa e acho que mesmo perguntado vc paga um certo 'preço' por ser sincero(com estranhos)! rs, Resumo: ser honesto intelectualmente sobre qualquer coisa é pra poucos!

Lara disse...

Pra que falar de sexo se podemos fazer sexo?

Prof. Esp. Daniel Freitas Saes disse...

É isso aeeee Lara !!!

Hhhhuuuuuhuuuuu...