sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Qual é a Coisa e de que são Feitas as Coisas

Volto a falar da autora que me causa comoção.

Que mistérios tem Clarice Lispector? A pergunta vem desafiando escritores, ensaístas e críticos e continua sem resposta vinte e cinco anos após o desaparecimento de uma das mais talentosas e enigmáticas personalidades literárias brasileiras. Cada iniciativa de revisitar seu universo, tão pessoal e ao mesmo tempo tão vasto como cosmovisão, tem o sabor de uma viagem ao fim do mundo.
Contidos no fluxo da consciência e servidos por um texto de crua e vertiginosa poesia estão muitos dos temas caros à escritora: a busca de um Eu fraturado pela descrença na própria identidade; a descoberta de um mundo estranho que dialoga com as esquinas menos conhecidas do ser interior; a consciência de que o ato de ver supera a função dos olhos; o amor pelo abismo de que se é feito. E tais temas são também bastante conhecidos da ciência psicológica que nasceu a partir da crise da subjetividade privatizada: do vazio do humano.
A subjetividade privatizada entra em crise quando se descobre que a liberdade e a diferença são, em grande medida, ilusões, quando se descobre a presença forte, mas sempre disfarçada, das Disciplinas em todas as esferas da vida, inclusive nas mais íntimas e profundas. A crença de que a fraternidade seria possível, ainda que todos defendessem seus interesses particulares, não sobrevivem por muito tempo.
Então, como se fala do nada? Como entrar no nível de percepção de alguém que conseguiu plasmar em palavras, em fluxo de pensamento-coisa, em magma significante circulando por milhares de anos e por detalhes da vida e por linhas que se cruzam, sem confundir, mas clareando, alvejando, esclarecendo? Clarice diz que o acréscimo é mais fácil de amar. Como se fala do anterior ao humano, daquilo que nossa própria constituição aprende a sublimar, em busca do significado para a nossa ocupação do mundo? Como é que se fala da morte? Como é que se fala da vida? Como é que se fala?

"Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase vivo, quase morro. Quase podia me jogar pela janela do meu sétimo andar. Mas não me lanço. Quase adivinho as coisas. Sei muito. E quase não sei. Já estive três dias à beira da morte. E dela guardo a mão direita deformada. Um quase".

3 comentários:

Lara disse...

Saudades de ter lido Clarice com você naqueles 4 dias.
De você com aquele seu "jeito" modesto de "eu não sei bem o quê significa, mas vou tentar explicar".

Muita gente se diz gostar de Clarice mas acho que muito poucos, com você incluída, são os que entendem.

è coisa de alma pra alma.

Gean G. Silva disse...

A poeta Clarice não cruzou meu caminho aínda(Li 'A mulher que amtou os peixes' e 'A hora da estrela' meu contacto então foi com a prosista , não com a poeta..) mas outro dia encontrei casualmente, como tudo mais) a Emily Dickinson, em um poema cheio de auto-confiança falando sobre a morte do seu amado e desafiando deus a tirar da sua memoria a figura do ser amado.. e caro que nem mesmo deus poderia(ponderou ela) já que o fato estava devidamente encerrado no tempo passsado, ao qual nem mesmo deus tinha acesso!

Trouxe o poema, que não tem nada com Clarice(quem sabe até tem!) mas foi o que me ocorreu..rs

EMILY DICKINSON NA RIXA
COM DEUS PELA PERDA
DE CHARLES WADSWORTH


(Poema 1260)

Abro a mão do que me cabe
e até a eternidade,
trocaria por amar-te,
ralhando ou não, sem idade.

Cedo morremos, quem parte
não fica rastro suspenso.
Importa termos vivido
e no viver está o tempo,

o paraíso e os sentidos
onde nós nos descobrimos.
E se Deus é tão ciumento,
palavras não serão limo.

Abro a mão desta existência
com teu rosto restituído,
é presunção, talvez ciência.
Tudo me vem distraído.

E o que me foi confiscado,
como esqueceste da vida,
eu na minha, desvalida ,
também me tenho deixado.

Senhor, minha rixa é contigo.
Quando achaste de levá-lo,
achaste que era um cavalo
sobre o teu vale de trigo.

Era todo o bem que eu tinha,
era o que, suave, me dava
esta parreira e eu , escrava
a consumir-me na vinha.

Se não me ouves, me leva !
Que conversarei , sentada
com meu amado na treva,
entre tumbas, madrugada.

E se a Deus nada é impossível,
pode ao meu amigo dar-me ,
por retirá-lo da morte,
sendo carne de minha carne.

E se assim fizer, sou grata.
Porque amor não tem alarme.
E o outro mundo não tem data.
E que o amado possa amar-me.

( de nova edição de OS VIVENTES)

nina.harvey disse...

Saudades de vc, saudades.