quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"Não é televisão, é cinema!"


A frase acima é do autor do livro "O Clube do Filme", David Gilmour, pai de Jesse, um garoto de 15 anos que fracassa na maioria das disciplinas escolares e se mostra entediado, cansado e chateado por ter que frequentar a escola. Gilmour então propõe o seguinte ao menino: não precisa ir à escola, não precisa trabalhar e nem pagar nenhuma conta dentro de casa, Jesse só precisa assistir 3 filmes por semana escolhidos pelo pai e acompanhado do pai. E sobre os olhares reeprensivos dos vizinhos que enxergavam dia e noite o pai e filho sentados numa poltrona assistindo televisão, David tinha vontade de gritar: Não é televisão, é cinema. E que fique claríssimo a diferença.

O filósofo nada ortodoxo, Paul Feyerabend, em seu livro "Contra o método" discursa a favor de práticas alternativas no ensino das crianças e adolescentes. Por que eles têm que aprender apenas as ditas "ciências sérias"? Por que não ter aula de mágica?
E essa é a pergunta que eu faço: Por que não ter aula de cinema, ou de música? Ao meu ver, e pode ser bem parcial, já que aprendi com a arte cinematográfica muito mais que as aulas de física, química e matemática juntas, o cinema pode e é um dos recursos mais agradáveis e eficazes de educação. Não essa educação tradicionalista que finge que o mundo não está mudando, mas a educação de conscientizar o jovem de que ele pode pensar por ele próprio, sem ser forçado a se confrontar com teorias, que provavelmente jamais terá de utilizar o resto da vida.

Na história de sua vida, David Gilmour não optou pelo mais fácil. Não é fácil não saber se o que ele premeditou, se o seu legado de crítico de cinema e conhecedor da sétima arte funcionará com o filho, se através do cinema, ele vai adquirir vontade de viver a sua própria vida. Não deve ter sido fácil esperar 3 anos para ver seu filho indo pra vida, mas deve ter sido inesquecível se sentar ao lado do filho e não só assistir aos filmes, mas ter com ele, conversas francas sobre a vida dos dois. O cinema tem esse poder: o de aproximar a nossa vida, a nossa consciência daquilo que a gente vê.

Quantos pais matriculam seus filhos nas melhores escolas, cursos de idiomas, aulas de ginástica, tênis, violão e o raio que o parta, mas não têm o menor conhecimento do que se passa na cabeça, no cotidiano e na vida desses filhos?

David e Jesse Gilmour aproveitaram (e não perderam) 3 anos de suas vidas para se conhecerem, para se respeitarem e consequentemente, para assistirem alguns filmes.

Obs1: E não é que David Gilmour além de ter sugerido os "ditos" clássicos, também assistiu com o jovem Jesse, porcarias, como ele mesmo escreve, como "Showgirls", "Robocop" e "Rocky 3"? Não se aprende apenas com o que é bom. Precisa-se de parâmetros para SABER o que é bom.
Obs 2: Fiquei surpresa e feliz que o livro esteja entre os mais vendidos. Espero que as pessoas saibam aplicar alguma coisa dele em relação aos que querem bem.
Obs3: Que vontade de reassistir "Amores Expressos", de 1994, do diretor Wong Kar-Wai. Depois do término do livro, fui correndo para a locadora, mas não tinha sequer uma cópia. Será que precisa-se comprar esse tipo de filme (não que isso seja desagradável, muito pelo contrário) para ter acesso? E a grande maioria? Fica sem assistir mesmo...

4 comentários:

G disse...

Nossa , muito interessante o 'método educacional' desse pai!
Lembrei , lendo teu texto ,do filme Cronicamente Inviável do Sergio Bianchi, tem uma fala que diz mais ou menos o seguinte: As ONGs não podem ver um desvalido, um pobre que vai logo colocando a pessoa para dançar , aprender música ,estas coisas..na época fiquei um pouco chocada com esta colocação do diretor, por quem tenho respeito e admiração!

Por experiencia sei que o gosto por poesia, musica, literatura pode salvar a alma da gente e dos nossos pequenos.
O estado de hipnose que uma pláteia tanto infantil como adulta fica quando ouve uma boa estoria,uma boa musica uma lenda um mito ou equivalente é impressionante !

E viva a Arte salvadora e consoladora do mundo humano!

Felipe disse...

Muito bom o livro e o blog também

Mara Toledo disse...

Sabe Gean, eu acredito que não precisa necessariamente passar pela experiência de apreciar qualquer tipo de arte para saber que ela nos salva.

Acho que o comentário do Sergio Bianchi foi lamentável. E eu sinto muito por ele.

Felipe, obrigada!

Nina disse...

eu não sou perita para saber o que exatamente uma criança ou adolescente precisa saber, eu só sei que achei o livro super agradável de se ler e nessa história em específico funcionou o que não sei se pode se generalizar. a estrutura familiar deles era boa, não dá pra dizer que funcionaria se a família tivesse uma base destruída. mas sem dúvida a arte é sempre educadora.