quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Critérios de normalidade

Há anos, os pesquisadores da área de saúde, principalmente os psiquiatras, tentam entrar num consenso sobre critérios de normalidade, mas nos deparamos com teorias vagas e pragmáticas subjetivas relacionadas aos indivíduos que os criam.
Um dos critérios mais usados é o de normalidade como ausência de doença, eficaz nos diagnósticos psicopatológicos, mas falho e precário, pois é redundante e baseia-se numa "definição negativa". Isso é, a normalidade é definida não pelo que ela é, mas pelo que lhe falta.
Socialmente foi construído outro critério: a de uma normalidade ideal. Como o nome já diz, é ideal, utópica e não baseia-se na realidade. Ela seria uma norma ideal, baseando-se no que os indivíduos supostamente classificaram como "sadio" durante o passar dos anos. Empiricamente tal normalidade não foi constatada de uma maneira eficaz quantitativamente.
Temos também a normalidade estatística que identifica norma e frequência. Se a normalidade ideal não baseia suas evidências de maneira quantitativa, aqui é apenas isso o que é levado em conta. Então, o normal seria aquilo que se observa com mais frequência, e as pessoas que se desviassem dessa distribuição estatística determinada seria desviante psiquicamente. Teoria fácil de ser refutada já que cáries dentárias, sintomas ansiosos, depressão leve e uso pesado de álcool são exemplos de maioria quantitativa, mas não são consideradas normais ou saudáveis.
A Organização Mundial de Saúde definiu a saúde como o completo bem-estar físico, mental e social. Criticável já que esse completo bem-estar é algo complicado e impreciso de se definir de maneira objetiva, fora o fato que o "completo bem-estar" é tão utópico que na sociedade atual pouquíssimas pessoas se encaixariam na categoria "saudável".
Outra: normalidade como processo. Essa é bastante utilizada em psiquiatria infantil e de adolescentes, assim como em psiquiatria geriátrica porque leva em conta os aspectos dinâmicos do desenvolvimento psicossocial, de desestruturações e reconstruções dos processos humanos. Útil, mas vago.
A normalidade subjetiva leva em conta a precepção subjetiva do indivíduo em seu estado de saúde. Teoria bastante "humana", mas tenho certeza que os indivíduos em fases maníacas se sentem muitíssimo bem. E aí?
A normalidade operacional é um critério assumidamente arbitrário e excessivamente pragmático. Define-se a priori o que é normal e o que é patológico. Grosso modo, os indivíduos são tratados através de uma nosologia e classificados sem ter sido levado em conta a sua subjetividade e sua história pessoal.
Acredito que a escolha do paradigma à ser utilizado depende das opções filosóficas, ideológicas e pragmáticas do profissional.
Mas, mais do que isso, acho que estamos longe de concluirmos o que é normalidade ou falta dela. Não seria hora de sentar e tentar chegar num acordo? Não para o bem da medicina psiquiátrica, mas para o bem dos indivíduos que os procuram para serem ajudados (com ou sem saúde).

8 comentários:

Fernando Bassat disse...

Já disse que eu adoro a maneira de você escrever?

nina.harvey disse...

a organização mundial de saúde teve a cara de pau de definir um critério tão estúpido? fiquei abobada agora!

Prof. Esp. Daniel Freitas Saes disse...

E dai?
Definir a normalidade vi ajudar em que a medicina psiquiátrica ou os indivíduos que precisam dela? Alteraria o tratamento ou traria melhora a simples definição de um conceito?
Particularmente, seguindo aquele critério por exclusão, penso que um pessoa normal seria aquelas sem nenhum problema, mas se existir alguém assim na verdade será uma pessoa anormal pois todo mundo tem problema! (E convenhamos que pessoa chata essa hein.) O que acha de definirmos então uma pessoa com problemas que atingem uma parcela significativa das pessoas, tipo um normal dentro de uma zona confluente? Tipo, eu tenho meus probleminhas normais, assim como muita gente então eu sou normal!

?:-D

beijos do primo
ps.Postei uma poesia nova!

gean disse...

Penso que não há problema nenhum em 'definir'.. talvez o problema esteja em quem vai acreditar nesta definição!Rs.Como não existe duas pessoas , no mundo inteiro, pensando igual, o bom é que cada um é bem especial e fonte de imensa curiosidade! Quando conhecemos uma pessoa devemos ter isto em mente e, em vez de desconfiarmos do diferente ,deveríamos nos divertir em perceber como o outro abstrai este verdadeiro mistério que é o mundo..Mas que o mundo é um enorme hospício, isso é!! né não?

Abraço e beijinho fraterno Marinha.

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Anônimo disse...

Acredito que a escolha do paradigma a ser utilizado depende das opções filosóficas, ideológicas
e pragmáticas.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

O jeito que ela escreve? Li 3 textos a respeito do tema e encontrei várias frases "dela" lá :)