sábado, 15 de novembro de 2008

Freud, metafísica, religião e Arquivo X




Comprei as primeiras três temporadas de Arquivo X e enquanto assistia um dos episódios, minha irmã entrou na sala e perguntou: "Afinal, o que aconteceu no final da série, os eventos paranormais foram explicados?". Respondi que não, poucas respostas e muitas perguntas. Ela me fez uma cara de que eu perdia o meu tempo assistindo algo que não tem final.
Pois bem, ao mesmo tempo de re-assistir os episódios, ganhei de uma amiga, minha querida Gean, um livro que ela me enviou por correio. O livro chama-se "Freud ética e metafísica, o que ele não explicou", de Olimpo A. Pegoraro.
O livro é uma discussão de idéias sobre dois dos textos mais importantes e interessantes de Freud: O futuro de uma ilusão (1927) e O mal-estar na civilização (1930). O primeiro trata do futuro da religião e o segundo, da civilização comtemporânea.

Transcrevo um pequeno trecho: "Em síntese, a ciência e a ordem social tendem para a criação desta prosperidade. O grande obstáculo está no homem, portador de tendências inatas destrutivas, anti-sociais e anticulturais".
Isto é, o controle e a repressão dos instintos humanos torna-se a regra da vida civilizada.

Mas o que há de comum numa série televisiva e uma obra de metafísica?
Etimológicamente, metafísica significa "além da física", além do que se pode comprovar com experimentos científicos, incluíndo as grandes ciências como a física, a química e a biologia, amparadas pelas ciências humanas como a psicologia, a economia e a antropologia.
Filósofos importantes como Heidegger, Husserl e outros, foram adeptos em não estudar aspectos metafísicos porque não saíriam de círculos viciosos, não haveria respostas adequadas para uma ajuda efetiva à civilização ou mesmo à subjetividade humana.
Em Arquivo X, nos deparamos com situações metafísicas, inexplicadas pela ciência. Não quer isso dizer que eventos paranormais, vida extraterrestre e conspirações governamentais não possam existir. Apenas não há explicações que possam corroborar isso. Como diz Freud: "Nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar podemos conseguir em outro lugar".

E é essa toda a graça e interesse que manteve toda uma gama de telespectadores assistirem ao programa por 9 anos.
Não há explicações, há fatos naõ explicados que ocorrem diariamente e que podemos acreditar, mas isso teria outro nome: fé. Mas o criador da série Chris Carter é tão esperto que ele não caíria numa dessas armadilhas de explicar fatos que cientificamente são engodos.
"A verdade está lá fora"? Pois bem, provem!
"Eu quero acreditar". Todos nós queremos, mas as pessoas que se questionam a cerca de acontecimentos diários precisam de provas.

Para encerrar, cito mais um trecho do livro: "Assim é a ilusão: não tem compromisso com a realidade, não dá valor à verificação objetica (científica). Fica, assim, por isso, respondida a pergunta sobre o valor objetivo da religião: valor nulo, porque se situa fora e além do campo da prova, fora do âmbito científico que lida com afirmações e retificações sobre a realidade".

5 comentários:

Lara disse...

Seguindo sua linha de raciocínio, os ateus, céticos e cientistas de maneira geral deveriam achar Arquivo X uma chatice, hum?

Helena disse...

Talvez você não concorde nada com o meu comentário mas acho a ciência por demais pretensiosa em achar que é a única que detém as respostas do mundo.
Sou a maior fã da Psicanálise que você já viu, mas tanto eu quanto você sabemos que ela não cura todas as pessoas e as vezes ela não faz nem coceguinhas...
Beijos querida.

nina.harvey disse...

só posso chegar a conclusão que jamais haverá vida 'civilizada' já que os instintos humanos não vão desaparecer. como freud via essa impossibilidade, essa incompatibilidade?

Gean disse...

Freud , além de herdeiro dos entusiastas da razão(que já foi identica a deus, na palavra logos) dos séculos XVII E XVIII tbm foi um grande entusiasta da mesma!Ele reclama de tudo que é irracional e desqualifica a religião no seu texto O futuro de uma ilusão. Ele explicou a mente usando a razão. Muitos acham que ele conseguiu. Outros tantos dizem que ele não tem provas das suas afirmativas! O que , diga se de passagem é bem ironico, pois como pode um ícone da razão não conseguir provar suas descobertas em experiencias repetidas por outros seus pares? Claro que em ciencia a hipótese é um argumento válido. Será que para Freud é pouco ter suas descobertas classificadas como HIPÓTESES? Mas parece que é isso que ele conseguiu! Por mim, acho Freud genial, assim como muitos outros pensadores, mas quem é que tem a palavra final? Parece que ninguém. Então o homem continua sua busca.. o que é justo! rs.


Beijo Ma..

Gean disse...

Voltei..
Quando estive na última Bienal do livro em Sampa, dei uma passadinha no 'stand' da editora Vozes (onde a Mari trabalhava) e contei lá exibidos (lançamentos)na estante :17 livros do Jung e só 2 de Freud!
Um se ocupou da mente o outro da alma, acontece que estes dois 'departamentos' não tem materialidade, ninguém sabe onde fica , só percebemos suas manifestações..rs
E Freud se borrava de medo que o Jung 'contaminasse' sua descoberta com misticismo!
Claro que comprei os dois do Freud...vai explicar!